Meu paraíso real

Como diria Stanislaw; pobre daquele que achar invenção minha, esta estória fantástica.

É mesmo veríssimo o que vos narrarei.

Ainda estou um tanto receoso, de que me venha a chamar de louco insano. Louco... bem!... o sou como tantos. Insano porém, não.

Vamos a estória.

Sai naquele dia por volta das seis horas da manhã como de costume. O sol caprichava em dourar aquele dia nascido para ser belo . Esgueirando-se, molemente, por entre as brechas das acolchoadas nuvens a cobrir, carinhosas, boa parte do céu. Rompia, multiplicado em mil raios alegres, aquecendo as paredes e a flora da praça.

O cão da dona Lilita, que todos os dias ladrava e me tentava morder o calcanhar, dessa vez, prostrou-se quase inerte atrás da amendoeira, balançado apenas o rabinho curto. Senti no meu âmago uma vontade enorme de, vendo-o ali tão manso , acariciar-lhe o pelo.

Não reconhecia naquele ali, o animal arredio e feroz dantes, insistente em vir-me, todos os dias, como um seu desconhecido, latindo nervosamente e mostrando-me aqueles seus dentinhos de agulha.

Chegando ao ponto de ônibus estranhei a calmaria ,vinda do pequeno grupo de pessoas. Geralmente ali ficava apinhado . Não demorou muito e o ônibus veio. Mais espantoso ainda, com quase todas as poltronas desocupadas. No veículo só haviam duas mulheres. E ambas eram belas e pareciam alegres.

Assentei-me na primeira poltrona, após pedir licença a moça loira que ocupava o lugar ao lado. Ela tinha um perfume discreto e inebriantemente delicioso. Apanhei o livro dentro de minha bolsa e comecei a folheá-lo sem nenhuma concentração. Fiquei envergonhado mas eu tinha de olhar pra ela. Olhei-a. Ela percebeu e olhou-me também com dois olhos de um azul tão apaixonante que meu coração disparou arritimadamente. Desviei o olhar. Fingi estar olhando para alguma coisa fora do ônibus. A loiraça, ao contrário, continuou ainda a fitar-me com um ar... sei lá... como se eu fosse um galã.

Fiquei incomodado, talvez a palavra não seja bem essa, mas senti-me estranho. Era esquisito aquilo.

Nunca havia feito tanto uso, assim conscientemente, da minha visão periférica. O monumento continuava a me olhar com um sorrisinho gostoso estampado naquele rostinho de boneca , que pendia meio de lado, numa postura agradável.

--Me informe as horas; por favor!—falou docemente. A voz! ai a voz! Era de sereia. Parecia canto dos mais lindos.

Gaguejei um bocado, antes ainda de olhar o relógio em meu pulso.

--São ...espere ai!

--o que foi? – falou ainda com mais mel na voz.

Não havia se passado, pelo que via no relógio, mais que três minutos desde que houvera saído de casa, às seis em ponto. Isso era um absurdo. Talvez meu relógio tivesse parado. Mas, havia trocado a bateria no dia anterior. Talvez estivesse com defeito.

Resolvi perguntar à morena, sentada na poltrona ao lado, mais atrás. Expressei um ‘ei’ que nem saiu inteiro. A mulher era deslumbrante. Sua pele parecia da cor do cobre aquecido. O rosto coroava aquele corpo fenomenal, que parecia gritar por sob o tecido alegre do vestido.

Tinha o mesmo sorriso convidativo da loira. Olhava-me com ternura.

Que coisa doida. Antes ainda que eu a perguntasse ,adiantou. –são seis e três , coração.

O meu coração é que parecia querer saltar, ou rebentar o peito de tanto bater.

Disse um obrigado quase inaudível. Eu estava trêmulo. Minhas mãos suadas. Pensei que ia dar algum trimilique. A morena respondeu ao meu agradecimento.—não há porque! se eu puder fazer algo mais .—fez uma carinha gostosa premindo os lábios intensamente vermelhos e piscando o olhinho esquerdo.

Senti a loira tocar o meu braço. Que mão macia. Parecia seda. Virei-me e deslumbrei-me novamente. Seu rosto estava bem perto. – Você está bem? Pareceu assustado.

-- É que está tudo tão estranho hoje.

--Quer conversar sobre isso? – pareceu ainda mais bela agora.—meu nome é Angelica.

Até o nome era lindo. Teria sequer algum detalhe meramente humano naquele anjo? Pensei.

Não!—respondi secamente,mas consertei depois.—Quero dizer... Nem sei como falar.

--Por que você acha que está tudo estranho? Ta acontecendo alguma coisa de anormal ?

--Tudo. Absolutamente tudo. O cão. O ponto de ônibus vazio. Esse próprio ônibus com duas mulheres lindas a me tratarem como se eu fosse algum bonitão.

-- você é lindo mesmo, ora! – inclinou-se para tocar de leve o meu queixo dando uma leve sacudidela.

-- eu estou nesse ônibus há mais de meia hora e o relógio contou cinco ou seis minutos. Sei lá... ou eu estou louco ou sonhando.

A morena levantou-se da sua poltrona e, tirando , num gesto educado mas não de todo amistoso, a mão da loira de meu rosto sentou-se ao braço da minha poltrona, deixando a mostra boa parte das coxas fartas , roliças e brilhantes . Colocou meu rosto entre suas duas mãos com um carinho que quase fez-me flutuar e falou com doçura.—mas o que há de ruim para você ficar assim, com esse ar de preocupação? Todos os dias acontecem coisas incomuns com as pessoas. Que há de mal em uma mulher bonita agradar-se de você?

--Isso que ta acontecendo não é comum. Não é normal.—levantei-me já assustado e dei o sinal. O ônibus parou e eu desci. Era o ponto onde eu desço para ir para casa, depois do trabalho. Já era noite.

Senti-me estranho. Até com um pouco de medo.

Entrei em casa um pouco cauteloso. Temia qualquer mais de estranho que pudesse acontecer.

Minha esposa estava ralhando furiosamente com os nossos três filhos. Mal eu entrei e ela já direcionou a mim a sua ira.— Veja no que dá o seu mimo com essas crianças. Estão umas pestes. Nem o jantar eu ainda consegui aprontar.

Olhei-a de cima abaixo. O avental manchado. Cabelo embaraçado. O rosto pálido. Apresentava por sob a blusa já um pouco desbotada pelo uso, o contorno da 'barriguinha' um pouco fora de forma.

Desamarrou a cara aos poucos, surpresa com meu semblante sereno e calado. Notou o meu olhar cheio de amor para a minha família.

Juntei-os todos num abraço.

--Ah! Como eu amo vocês.

--chiii! Bebeu de novo. – saiu para a cozinha.

Sentei no sofá a brincar com meus filhinhos. Tempos não o fazia.

Também há tempo não amava minha esposa como naquela noite.

Na manhã seguinte, o cão de dona Lilita veio a me azucrinar , como sempre . Agachei-me e estendi a mão em sua direção. Parou de latir e ficou virando a cabeça de um lado para outro, como se tentasse entender meu gesto estranho para ele. Abanou o rabinho, e foi se deitar debaixo da amendoeira.

Meti a mão no bolso e havia nele um papel. Abri-o .

9999-9999 Angelica.

Rasguei-o.

Nunca tentei explicar o que ocorrera naquele dia.

Roni Muniz
Enviado por Roni Muniz em 05/06/2012
Reeditado em 12/07/2012
Código do texto: T3706895
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