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Memórias do Interlúnio

No dia terceiro, a morte ainda era certa. Viria Deus depois? Sentia em mim o odor dos mortos e minha nudez era opróbrio em infinitos tons de cinza. O aperto no peito atravessava o mar, ia dar na costa, embebido em areia e sal. Só, com o corpo confuso e o ardume nos olhos eu partia. Era de súbito e de sempre aquela sensação de que não havia vida possível fora da palavra pátria. Toda a certeza de quem sou estava ali, vinculada ao imo solo que instava na memória.
A dor era permanente. Pungia-me a saudade dos sons, ouvir simplesmente alguém dizendo bom dia em língua que se me revelasse sem esforço.
Não que fosse um misoneísta, ou que não amasse a possibilidade de compreensão das nuances e todos as idiotismos que fazem um povo. Mas as agruras do exílio me fizeram avesso ao mundo novo. O mundo novo não era a benção. Penso em Jango. O exílio é este lugar solitário a que nos reportamos todos. O lugar dos nossos mortos, das mazelas que nos destituem de tudo o que aprendemos antes, para encontrar um novo ser, transitório e pouco iluminado. Sem história e sem lastro, pode-se ser qualquer coisa: idólatra ou iconoclasta. Quem se importa?
O degredo nunca é voluntário. Sofrem os que vão fugindo, como meus companheiros taciturnos mesmo cantando a alforria dos asilados políticos, mesmo sorrindo entre as chagas das ditaduras, mesmo ouvidos em canções e poemas, conquistando outros espaços. Sofrem os que, voluntariamente e a título de grande competência, vão aos espaços longínquos e estrangeiros carregar bandeira ou ser gauche na vida.
Eu mesma que parti há tanto, surpreendo-me sonhando em inglês e me esforçando para que não morra em mim a minha língua e todos os seus úmidos sentidos. As palavras esvaziam-se de não serem ditas, vão se esvaindo em fonético dégradé. Meu povo figulino fica na memória e, de repente, não faz sentido o conforto que tenho, e minhas pequenas alegrias eletrodomésticas.
“Bárbara bela, do Norte estrela, que os meus passos sabe guiar...” As palmeiras de minha terra enganam, nem todo mundo pode viver por lá. Mas o que sou longe dela? O que me diz este silêncio ecumênico? Que não sei ser feliz sem lhe pertencer, minha terra ingrata!  Além dos tons em que se perde esse estranho ocaso, meu corpo dissolve uma rósea casca de pele, sob a qual um desenho sanguíneo agita e estanca ritmado. Encontrei um lugar entre as ribanceiras íngremes e aqui o pensamento que me distingue da pedra é mais frágil que ela. É daqui que posso ver os homens e seus vícios e ninguém fora jamais convidado a este discurso escatológico. Mas então, pairando sobre essa névoa, à véspera do riso, me aparece você, meu país utópico, no exato instante em que eu entregava minha flor azul ao desmanche.
E trouxe consigo aquelas lembranças tão íntimas que só quem andasse na floresta à noite poderia entender.
E havia impressões na alma e ressurreição no corpo e agudeza no espírito e a carne sólida do poema. Tudo ali repartido, muito além da mísera poça d’água. Ardências de língua pátria.
De fora ficaram uns olhos amenos, uns cabelos castanhos, uma esperança eriçável, mas distante, como à espreita do momento em que eu volte, quando me tomará o pensamento e de novo mudará o ocaso em escarlate.
claudia lidroneta
Enviado por claudia lidroneta em 23/07/2005
Código do texto: T37096
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Sobre a autora
claudia lidroneta
Israel, 48 anos
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claudia lidroneta