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Texto

Sexo banal

     Gosto de analisar coisas corriqueiras, banais do cotidiano. Como não me dou por satisfeita apenas com o que vejo, procuro esmiuçar o que está por trás de cada ato, de cada fato, de cada palavra e até de cada pensamento. Curioso isso.
     Outro dia me dei conta de que ninguém mais faz amor. Todos fazem sexo. Sexo demasiadamente sem sentido. Animalizado, mas sem fins procriatórios (mesmo que isso geralmente ocorra). Como é interessante isso. Ver crianças de 12 ou 13 anos fazendo sexo atrás da escola, quase que “acasalando” com sons guturais. Confesso que fico envergonhada. Ainda me envergonho. Ainda fico corada comigo mesma. Porque não fico com vergonha deles. Fico com vergonha de minha pessoa: tão inocente, tão puramente inexperiente. Inocente, sim. Não consigo olhar para esses adolescentes com malícia. Eu vejo crianças. Crianças maculadas pela falta de pudor, pela falta de amor próprio. Eu preciso de amor para fazer sexo.  E me sinto inexperiente. Não posso conceber, aceitar que isso seja normal. E nem imaginar que daqui a pouco podem ser meus filhos. Isso realmente me preocupa. Não sou moralista. Nem sou santa ou mal amada. Mas sou uma mulher indignada frente à tamanha banalização do sexo. Como disse: inexperiente nesse ponto.
     Iniciei o texto dizendo que gosto de analisar coisas banais. E como o sexo está banalizado. E a culpa é de quem? Dos pais? Da desestruturação familiar? Da sociedade? Desses pequenos “ninfomaníacos”? Dos hormônios alterados por tanta porcaria ingerida?
     A culpa é da falta de vergonha na cara. A culpa não é de ninguém, e ao mesmo tempo é de todos.
     É culpa dos pais que acham normal a filha de sete anos brincar de médico com o priminho. A culpa é da família, que já não entende seus entes nem tem tempo de educar (a escola que se vire!). A culpa é da sociedade que cada vez mais tiraniza com suas obcessões por beleza, moda, dinheiro, consumismo. Que molda um povo homogêneo, tira dele a identidade individual e lhe impõe o código de barras da perfeição. A culpa é de cada indivíduo que não se valoriza. Que acha que seu corpo é uma fonte de abusos de toda sorte e que virgindade é defeito. A culpa é das alterações genéticas e hormonais impostas pela alimentação cada vez mais artificial e matadora. No fundo, a culpa é mesmo minha. Mea culpa, mea maxima culpa...
     Sou culpada porque admito que aconteça. Porque sei que acontece e ignoro. Porque não quero ser chamada de quadrada, antiquada, então finjo que é normal. Sou culpada porque não faço nada a respeito. Não denuncio para não me incomodar. Sou culpada simplesmente por aceitar as coisas como são.
     E ao que isso irá me levar? E no futuro? À que me alienarei? Vou me acostumar à violência? Ao mau caratismo? A drogatização eminente? À destruição iminente do planeta? A desumanização do homem?
     É isso que me causa medo. O ser humano se acostuma a tudo. Modifica seu caráter para fazer parte de um grupo. Aliena-se para não isolar-se. Mata para não morrer. Não faz amor porque todos fazem apenas sexo.
     Incomoda-me o ato do sexo banal. Incomoda-me a libertinagem das palavras. Incomoda-me ainda mais o pensamento saturado de perversões. A banalização do sexo mostra a banalização da vida.
     Enquanto o indivíduo não respeita o templo de seu corpo, sendo ele gordo ou magro, bonito ou feio; enquanto ele não percebe sua importância como ser único e de valor inestimável, ele faz um sexo sem sabor. Um sexo sem amor. Sem prazer que não seja aquele do orgasmo. E quantas vezes uma pessoa passa a vida sem saber que há outro prazer além do orgasmo físico proporcionado pela relação sexual. O prazer de se sentir amado e completo. Mas acima de tudo: o prazer de se amar.
     Temo que essas gerações envelheçam sem saber o que é isso.
     Com certeza esse assunto é polêmico. Devia ter escrito sobre passarinhos. Sobre lindos passarinhos num dia lindo de sol. E de como eles fazem amor.



Eliz Dalponte
Enviado por Eliz Dalponte em 20/06/2012
Reeditado em 12/07/2012
Código do texto: T3734323
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Eliz Dalponte
São Lourenço do Oeste - Santa Catarina - Brasil, 35 anos
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