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O VÍCIO DA INFELICIDADE (REV.)

          Taí. Bem diante do seu narizinho. Aquele grande e primeiro e único e esplendoroso amor que você encontrou num dia ensolarado da sua sombria e terrível vida sem cores acabou. Estrebuchou, arrebentou-se em estertores terríveis que todos os vizinhos da platéia assistiram, agonizou, mas, findou-se. Você querendo ou não. Foi-se, virou poeira. E quase com direito a tapas e sem os beijos da musiquinha breganeja que todo mundo que curtiu fossa um dia, mesmo dizendo que não gosta, ouviu à exaustão. E você ficou ali, parado feito um dois de paus, olhando os escombros do seu belo castelo construído com aquilo que você desejava ver, tomando, evidentemente, o cuidado necessário de construir um porão bem fechado para trancafiar o que você não queria ver.
        Sim, senhora. Você escondeu um bocado de coisa porque o sol iluminado dos seus desejos fizeram muito bem o trabalho de cegar-lhe os olhos para os sinais que prenunciavam os consertos que seriam necessários para que a construção não desabasse. E nem vem com esta coisa que o sol ilumina e a gente enxerga melhor. Experimenta ficar olhando direto só pra muita luz um tempão pra você ver se não fica cegueta, cegueta...Uma exigência descabida aqui, uma proibição disfarçada ali, uma invasãozinha de privacidade acolá. Mas, o que é que custa? Isso não é nada, não é mesmo? Além disso, o amor exige concessões. Tranque tudo no porão, que aí você nem se lembra mais...
         Mas você esqueceu um detalhe importante: nos porões há ratos. E eles têm o péssimo hábito de levar seus restinhos de comida para os outros aposentos do castelo. E vai uma sujeirinha para a sala, outra deixada estrategicamente num canto do quarto, outra besteirinha nos demais aposentos. Não esqueçamos que normalmente somos moradores dos mais relapsos e contribuímos com o trabalho dos roedores, jogando também uma e outra bobagenzinha podre para debaixo do tapete. Preguiça de limpar a casa, sabe como é. E a bomba vai sendo armada, com munição poderosa, lentamente. Um descaso com a dor do outro, uma falta de interesse pelos interesses do outro, um deixar instalar-se uma rotinazinha miserável.  E um dia estoura. Se tem uma bomba que é muito bem armada e estoura com estilhaços perigosíssimos por todos os cantos, causando danos irreparáveis às duas criaturas desavisadas que são os apaixonados, é justamente esta: a do amor plantado e deixado crescer por conta própria, como se não precisasse cuidados. Feito lua, um dia mingua. Quem se apaixona, junta as escovinhas de dentes e divide os armários, acha que já está tudo garantido, o castelo erguido, a princesa à disposição e o cavaleiro conquistador, o grande senhor do Reino. Mas sempre esquece do porão. E o amor não gosta de porão. Não gosta de ratos. Mas você  fez o jardim, arrumou a sala das visitas, o quarto do casal e esqueceu dele : o porão.
        Em resumo: finou-se o tal amor deslumbrado. Resta seguir, apesar das costas lanhadas, do coração virado em cacos, do monturo em que se transformaram as juras e declarações.
        Você pega seus livros, discos, suas fotos e, é claro, suas culpas. Ele pega as dele, e estamos empatados. Mais ou menos, porque um sempre acha que o outro é mais culpado. Porque há sempre três verdades: a sua, a minha, e a verdade.
       Cada um toca o barco, encontra outros pares e vamos nós de novo ir cantar noutra freguesia, porque nesta não se vende mais nada, a não ser rancores. E a sua vidinha começa de novo a ter cara de vida e você até acha que agora vai dar pra ser feliz. Que nada. Rapidinho você acha uma razão para ser o mais infeliz dos seres do mundo, incluindo os alienígenas que vão nos abduzir para suas experiências científicas terríveis, se os houver.
        A verdade verdadeira é que somos realmente um bando de manés: parece que nos acostumamos com a infelicidade, a mesa parca, a cama pouca, o amor pequeno. Porque, no fundo dos nossos porões, é o que achamos: NÓS somos pequenos e o que vier e lucro. E quando se nos apresenta a prova de que podemos, sim senhor, ser muito felizes, que podemos escolher não sofrer apesar da dor que vem mesmo quando não queremos, não sabemos o que fazer com isto.
        A verdade é que não sabemos conviver com a felicidade e tratamos logo de querer estragar alguma coisa pelo simples capricho de que queremos ter razão. Seres racionais que acreditamos ser, deixamos de nos fazer a mais lógica das perguntas: “Afinal, eu quero ser feliz ou quero ter sempre razão?”. E quando fazemos a tal pergunta, o ego, velho conhecido estragador de festas, responde prontamente pela segunda opção. Fatalmente iremos fazer comparações do agora com o ontem. E quando comparamos qualquer coisa, só há perdedores. Se algo ontem foi bonito é justamente por isso: porque está no ontem. O que eu tenho agora e o que vou fazer com o que tenho é o que de fato interessa. O que já foi só serve mesmo de ensinamento, se a gente souber enxergar. Se não, melhor nem lembrar.
        Estamos tão acostumados ao sofrimento e à tristeza, que já conhecemos bem e com quem sabemos lidar, que tendemos a não saber o que fazer do prazer e da alegria, que são desconhecidos e nos botam contra a parede. Não sabemos o que fazer com o desconhecido e queremos logo voltar para o terreno que nos é familiar.
       O nosso problema é que temos um vício horroroso: o da infelicidade. Primeiro porque gente é um bicho abestado: se acostuma com tudo, principalmente com porcaria. Depois, porque ser infeliz e coitadinho, é ótimo pra todo mundo olhar pra gente com ares de solidariedade. Solidariedade é o escambau. As pessoas têm PENA, peninha. Entendeu? A gente fica digno de pena. Veja que coisa maravilhosa: a gente acha gostoso que sintam peninha da gente. Ora, só mandando catar coquinhos. Se você duvida do que estou dizendo, experimente dar uma de gaiato, espalhando aos quatro ventos a sua felicidade e observe atentamente as pessoas. Tirando as que de fato gostam de você, o resto vai te olhar puto da vida, como quem pensa: “Por que ele consegue e eu não?” Não estou sugerindo que a humanidade é podre. Mas que boa parte dela é muito mal resolvida, isso lá é. E lá vamos nós, viciados em dor, transformar o Jardim do Éden num novo Calvário, com uma cruz novinha em folha.
 Só tem um jeito: dar um passo para trás, de preferência pra fora de nós mesmos, exatamente como fazemos com uma pintura na parede e passar a ver as situações de outros ângulos. E, de preferência, enxergar o que está ali e não o que queremos ver. Se não tiver coragem pra uma boa dose de vergonha na cara, tome logo um porre de autocomiseração, puxe a tampa do caixão, e mande botar o epitáfio adequado: “Aqui jaz o legítimo Pobre Coitado. Morreu por incompetência total para a Vida. Não deixa saudades.”
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 25/07/2005
Código do texto: T37697

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai