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TEM UMA PEDRA NO MEIO DO CAMINHO...

TEM UMA PEDRA NO MEIO DO CAMINHO

A vida tem coisas engraçadas. E tudo depende, como sempre, e como já se diz desde que o homem pensa, do ângulo por onde se olha. Há quem dê com o dedão numa pedra, e depois de xingar todos os impropérios possíveis, continue vendo a pedra. Mas há quem, rasgando o dedo na dita cuja, tire a pedra do caminho e descubra ali um bom lugar para plantar uma bela flor. Assim nossa vida.
Uma grande pedra, eu diria quase uma montanha, apareceu como do nada no meio da estrada por onde eu caminhava. Naquele momento, o que eu vi não foi a pedra. Havia sim, uma bela praia, com sol e jardins repletos de flores. Entrei de sola no jardim. Erro de julgamento, incompetência para trabalhar no ambiente ou cegueira emocional, provavelmente resultado de pouca experiência no assunto, o fato é que não vi a pedra. E, já disse Nietzche (e se não foi ele, fica por conta da minha  memória pouca), é preciso ter cuidado com o que se deseja, dado o risco que se corre de se conseguir. E eu ganhei a pedra. Apenas algum tempo mais tarde comecei a vê-la como tal.
Meu lado otimista não é dos piores, de modo que decidi ficar polindo a dita cuja porque, segundo meus cálculos e expectativas, debaixo dela havia um enorme brilhante com grandes possibilidades de brilho. De novo, não sei dizer o que foi que não andou bem: se foi falta de experiência, se foi excesso de otimismo, ou simples falta de empenho. O que importa é que daí por diante, o refrão entrou no cotidiano: no meio do caminho tem uma pedra, tem uma pedra no meio do caminho...
Não restou muita opção, senão remover a pedra. Vale observar que, a estas alturas, o pé e boa parte do restante do corpo já tinham sido bastante machucados, o que tornava a pedra ainda maior aos olhos e incômoda ao coração. A tendência natural é achar que, dali pra frente, há que se andar desviando das pedras ou, quem sabe, melhor ficar parado e nem seguir adiante. Confesso que me senti tentada.
Por sorte ou por azar, ainda sou daquelas que acreditam na
humanidade. Acho mesmo que a maioria de nós não pára pra se olhar
atentamente e acaba não tendo idéia do brilho que carrega dentro de si. E
acaba muitas vezes pensando em si mesmos como pedras. De seus próprios
caminhos. Tive sorte. Caiu outra pedra imensa em cima de mim. Ou melhor, do meu lado. E brilha intensamente o tempo todo. E vendo a luz que ela traz, percebo a cada dia que a minha própria luz é muito maior do que eu sabia. O refrão continua. Tem uma pedra no meu caminho. E graças a ela, eu mudei meu conceito sobre as pedras. E sobre mim mesma.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 27/07/2005
Reeditado em 27/07/2005
Código do texto: T38052

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154011 leituras)
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Débora Denadai