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Texto

"Relato de um professor"

Levantei naquela manhã eufórica, estava

com o corpo coberto por uma ansiedade nunca sentida antes.

Apressei os meus afazeres matinais: escovar os dentes,

tomar banho, escovar os cabelos, escolher uma roupa e

enfim arrumar o meu material de trabalho, pois nunca

consegui me manter organizada. Tomei meu café e sai em

disparada pela porta, quando minha mãe gritou: “Você está

esquecendo o seu avental!”. Minha mãe sempre foi mais

atenta do que eu, pois se lembra sempre daquilo que eu

esqueço.

Dentro do carro, em cada farol fechado, arrumava

um tempo para ler as principais notícias do jornal, pois a

leitura integral do mesmo só poderia ser feita após as

seis aulas da manhã. Na hora do intervalo, que era de

apenas quinze minutos, eu não conseguia nem sequer tocar

nele, eu e meus colegas de trabalho discutíamos assuntos

pertinentes ao nosso trabalho, e muitas vezes eu proferia

aqueles meus discursos explosivos de repúdio a todo e

qualquer alienação na área educacional.


Comecei o dia bem, a turma que receberia o meu

excelente humor matinal era o 3º MB , uma sala eclética

por demais: meninos e meninas esforçando-se para

compreender o Modernismo e suas análises, um casal de

namorados que mais entendiam de romantismo do que qualquer

outro assunto, alunos em inércia total e outros atentos a

qualquer erro do professor, para proferir-lhe  ou melhor,

destilar  o veneno indispensável.


        Enfim a aula durou cinqüenta minutos, realizamos

algumas leituras e explanei algumas explicações que seriam

essenciais no momento da resolução dos exercícios. Porém,

antes de sai, gritei em voz alta: “Galera, valeu pela

aula, você são flórida!”. Lógico que o “flórida” saiu num

tom mais ameno, nas entrelinhas, e assim encerrou-se mais

uma etapa naquela turma.

        Vou resumir as outras cinco aulas seguintes até

que eu chegue até minhas últimas duas, que é meu objeto de

análise neste pequeno relato.

Na segunda e terceira aula tive o enorme prazer de

dar o famoso “sermão das abelhas”, a sala que era de do 2º

ano, estava repleta, eram 42 alunos, todos dispersos e

sedentos para narrarem suas peripécias do final de semana.

Nunca gostei de dar aulas de segunda feira, sempre cedo

alguns minutos para que eles desabafem suas amarguras.

Mas antes mesmo de começarem o ritual semanário,

fixei meu olhar para a porta, que já estava fechada e

comecei a “trocar idéias” com ela. A sala foi repousando a

conversa até que todos ficaram em silêncio para ouvirem a

minha conversa: “Pois é amiga Porta, você sabe muito bem o

que significa viver inerte diante de um mundo que gira sem

parar, sabe muito bem o quanto é complicado depender das

ações dos humanos quando sente calor e precisa ser aberta

para ventilar-se...” continuei a bater o maior papo com a

senhora Porta, até que um dos meus “lindinhos” disse: “Uai

prô, tá com “pobrema”?”. Ignorei a cacofonia proposital e

respondi: “Meu problema consiste em calar vossas bocas,

mas como competir com o Orkut, Msn, baladas, Emos e todas

as outras coisinhas?”

Não demorou muito para ouvir a seguinte

resposta: “Relaxa psora, hoje é segunda feira”. Relaxei, e

completei ao final da segunda aula, com três quadros e

meio cheios de esquemas e aceleradas explicações. E ao

iniciarmos a terceira aula pedi aos meus “lindinhos” que

guardassem todo o material, pois completaríamos a nossa

aula no pátio da escola.


Uma aula de literatura no pátio? Sim, no pátio nos

colocamos num enorme círculo e então coloquei uma música

para que eles refletissem sobre todas as suas atitudes

perante a vida. Em silêncio, quase que dormindo, escutaram

a música “Tempo perdido”, do Legião Urbano e para

encerrar “Velha Infância” do grupo Tribalistas.


Ao subirem para a sala lancei duas perguntas: “Ser

efêmero é viver intensamente a vida?” e “Exaltar o amor ou

o passado é ser anormal”.


Não sei ainda qual será o resultado deste pequeno

trabalho, mas ao chegar à casa e abrir a minha caixa de

mensagens, descobri que mais de 30% da sala haviam me

deixado recados. Coisas de adolescentes.


Voltemos para a quarta aula: eu já estava cansada,

mas mantive-me firme, meus pés pareciam pesar uns duzentos

quilos cada um, pois eu não consigo sentar, sempre ando

pela sala de aula, até mesmo quando estou explanando

determinado assunto.


Contar histórias: com a turma do outro 3º a coisa

foi mais complicada, não sou muito sociável para alguns

alunos, é a lei da ação e reação, dormir é um favor enorme

que fará, pois não terei que interromper meu seguimento

para chamar a atenção de marmanjo. Mas enfim a aula

transcorreu sem maiores problemas, só houve apenas um

comentário. Como eu estava explicando sobre a obra “Vidas

secas” de Graciliano Ramos, houve um determinado momento

que entramos na questão política, e de fato sempre induzi

minhas aulas para este fim.


        Laura é uma aluna carismática, conversadeira e que

possui alguns problemas com relação ao seu processo de

aprendizagem, muitas vezes acaba distorcendo o assunto.

Antes mesmo que eu encerrasse o assunto sobre “Reforma

Agrária” ela disse em tom de protesto: “Ah professora, se

invadissem minhas terras eu mataria um por um”. Talvez no

calor do debate ela não tenha refletido sobre a força da

sua expressão. Então, me aproximei e perguntei-a: “E se o

papel fosse revertido?” Laurinha fez um gesto duvidoso e

abaixou sua cabeça.


Do outro lado da sala explode a seguinte

pergunta: “É mais fácil saciar a fome deles durante um

tempo, e depois joga-los no esquecimento do que investir

em algum projeto que sanará o problema de uma vez”.


“Jesus! Estou diante de um conflito de idéias e

isso é ótimo.” Pensei em voz silenciosa, mas dando total

liberdade para eles prosseguirem. Sempre os orientei que

ao discordarem de quaisquer assuntos, que ressaltassem de

forma clara o motivo pelo qual são contrários e

justificassem seus argumentos com teorias claras, deixando

de lado as informações incertas.


A aula tornou-se prazerosa e como sempre

aproveitei o tema e lancei-lhes um questionamento para ser

debatido na próxima aula: “Dar peixes ou ensinar a pescar”?


Ufa, finalmente o intervalo chegou. Ao chegar à

sala dos professores observei que somente eu me mantinha

elétrica, os outros estavam sentadinhos e lanchando,

enquanto eu não parava de tagarelar, parece que sou

diferente de todos, há um distanciamento enorme entre eu e

os meus colegas de trabalho.


Quinta e sexta aulas: A turminha era nova, não nos

conhecíamos, era preciso eu mostrar a eles de que forma eu

trabalhava, então discursei inicialmente como se fosse um

sargento, listei tudo aquilo que não admitia, sem lançar

um único sorriso. É desta forma que um professor consegue

fazer com que o aluno saiba diferencia respeito de medo.

Não queria que me temessem, como acontecia no ano anterior

em que estavam no Ensino Fundamental. Lembro-me que ao

passar no corredor eles paravam de conversar e até

abaixavam a cabeça. “Que tolice” eu pensava.


No transcorrer da aula lancei minhas famosas

perguntas, a primeira delas era para que eles

diferenciassem “literatura boa” de “literatura ruim”. O

silêncio foi quebrado por um japonês muito simpático cujo

nome não me lembro, pois só tive aquela aula, é impossível

guardar todos os nomes.


O garoto em tom de deboche disse: “Paulo Coelho é

literatura boa, pois o cara escreve uma penca de bagulho

dá hora e literatura ruim é aquela que o mano escreve uma

pá de baboseira que nem sequer compreendemos uma única

palavra”.


Meus ouvidos doeram ao ouvir que Paulo Coelho

seria ícone, segundo aquele jovem, da boa literatura, mas

eu o respeitei, afinal gosto são diferentes.


Agradeci pela sua participação e sentei-me ao lado

dele. Os outros começaram a perceber que eu já havia

quebrado a barreira entre “professor e aluno”, era este o

meu objetivo, ensinar como se estivéssemos numa conversa

informal. Os outros alunos perceberam o momento e

começaram a interagir. Foi uma longa e divertida conversa.



Ao final Karen, uma linda morena, me perguntou: “E

pra senhora, o que é literatura boa e o que é literatura

ruim?” Ah, é chagada a hora de eles entenderem qual era a

minha verdadeira intenção com aquele debate.


“Digamos que, literatura boa é aquela feita com

sentimentos ruins, tais como: amor, saudade, devaneio,

ausência, morte, desespero, solidão e etc. e que

literatura ruim é aquela feita com sentimentos prazerosos

e bons.”


As interrogações em suas faces foram ficando cada

vez mais enormes, até que Tiago perguntou: “Há algum

exemplo professora?”.


Eu respondi: “Sim, vamos citar um exemplo de

literatura ruim: “O doce veneno do escorpião”, da tal

surfistinha (eu não gosto de desmerecer nenhum trabalho,

mas levar esta obra aos mais vendidos é desmerecer grandes

escritores) que narra suas peripécias sexuais. Oras,  por

um acaso a leitura deste livro fará com que vocês reflitam

sobre alguma coisa? “


Houve alguns comentários, algumas exaltações e até

mesmo muitas gargalhadas, mas entenderam o tipo de

reflexão que eu havia suscitado.


Quanto a exemplos de literatura boa exemplifiquei

com ícones de nossa literatura, fazendo-os lembrar da

universalidade de Machado de Assis e de Carlos Drummond de

Andrade, que nos fazem refletir sobre questões mais

complexas como: atitudes humanas, visões políticas e

sociais, entre outras formações que podemos adquirir com

estes autores.


Finalizamos a aula com o completo entendimento

sobre a minha disciplina, e o quanto ela é importante para

que nos tornemos seres reflexivos e questionadores. Alguns

alunos comentaram sobre o que pensavam sobre Literatura,

ou melhor, sobre a aula de Literatura e chegaram a uma

conclusão: “é uma aula muito divertida e super

construtiva”.


Resolvi relatar um dia de professora, pois vale a

pena qualquer atitude para modificar o ensino, quando se

tem a real intenção de fazê-los entender sobre a

importância da leitura em nossas vidas. Sou uma contumaz

professora de Literatura que luta avidamente para

deixarmos de liderar a rabeira da ignorância.


Anita Fogacci
Enviado por Anita Fogacci em 14/02/2007
Reeditado em 10/01/2008
Código do texto: T381223

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Sobre a autora
Anita Fogacci
Cabreúva - São Paulo - Brasil, 41 anos
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