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ARRASTAR A MALA


Preparar mala, dobrar e desdobrar as amassadas roupas do dia-a-dia, sempre foi a pior parte da viagem. Sempre me pego lamentando a dificuldade de prever as vestimentas de amanhã, o tempo e os imprevistos. Depois carregar... Malas de mão, malas de rodinhas e malas-sem-alça. O peso de uma bagagem, os excessos de peso de algumas indecisões...
Na sala de espera do dentista, leio a entrevista de uma modelo conhecida sobre um jogador de futebol. Ela relata a simplicidade do homem que anda de táxi em São Paulo, compra pequenos mimos na conhecida boutique paulista e não carrega mala nas constantes viagens ao exterior por considerar “coisa de pobre”. Claro que a revista não era atual, a relação dos personagens não resistiu às outras edições e a matéria não alcançou todas as malas possíveis, mas...
Troco de revista. Tento aproveitar o tempo de espera com algum conhecimento que enriqueça minha bagagem interior. Novamente malas, mensalões, denúncias e o espetáculo armado com um consistente elenco e um enredo que beira o teatro do absurdo. Malas de dinheiro carregando/conduzindo a política do país. “Todo mundo sabe...” “Onde estou? Num convento de freiras?”
Com ajuda do dicionário Aurélio, consigo perceber a abrangência e a versatilidade de alguns objetos, principalmente, quando o significado metafórico é algo a ser definido: uns “arrastam mala” (Bras. MG SP  MT Pop.  – roncam bravatas, fazem ameaças), outros “arrastam a mala” ( bras. N.E.  Fam.  – são logrados), e ainda existem os que são simplesmente “malas” (Bras. Gír. - Pessoa extremamente enfadonha, maçante).
O conjunto de realizações de uma pessoa deveria ser uma bagagem constante a acompanhar os trajetos de vida. Revejo minha dificuldade de fazer as malas e reconheço que todos devem ir de mala e cuia para as novas realidades.
Tento dispersar a indignação com a leitura dos dois artigos. Num país de miseráveis, falar de quem ainda tem o que carregar é um privilégio. Contudo, meu pensamento é dominado pelas bagagens interiores, as convicções, a ética, a coerência... Valores (falo dos princípios e não dos títulos realizáveis em dinheiro) que muitas vezes são pesados fardos amarrados ao corpo, mas que também são a certeza de uma bagagem que não pode ser extraviada nas tantas viagens que temos de empreender.
Diante de minha inquietação e do atraso, a secretária do dentista liga um pequeno aparelho de TV. Novas notícias. Assessor depõe e justifica que os milhares de reais da mala e os milhares de dólares encontrados nas vestes íntimas são fruto de uma venda de verduras. Malas de dinheiros são encontradas em aeroporto com homem político e religioso. Milhões de reais e a justificativa de serem produto do dízimo oferecido pelos fiéis da igreja... Outras malas, outros milhões...
A inocência dos fiéis e a dantesca imagem da infinitude de células são representações continuadas dos inúmeros escândalos que presenciamos, as tantas justificativas, os transportes íntimos de moedas, e a perda, quase definitiva, da esperança por um mundo transparente, ético e justo.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 27/07/2005
Código do texto: T38193
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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