MÃES QUE ACORRENTAM FILHOS: A PERVERSIDADE DAS DROGAS
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Até que ponto vale a pena descumprir as determinações legais em nome de uma causa? Mais especificamente, que atitudes radicais (e ilegais) de uma mãe podem ser justificadas pela necessidade de proteger seu filho ou, pior, de proteger os outros das ações de seu filho? De certa forma, o instinto maternal de proteção à cria é tido muitas vezes como um sensor de perigo primordial e primitivo. “Algo está errado com meu filho, devo resguardá-lo por si e pelos outros”.
O senso comum nos fala do instinto materno como a primeira medida do comportamento infantil: dizem que uma mãe sempre sabe quando algo vai mal. No filme Precisamos falar sobre o Kevin temos um exemplo que, ainda que incomum (tratava-se de um filho psicopata que, além disso, tinha problemas de relacionamento com a mãe), gerou questionamentos a respeito da importância da ação familiar – focada na figura materna – ao direcionar os caminhos de um filho com problemas.
O filme, que esteve nos cinemas no início deste ano, mostra os tormentos de uma mãe que tenta entender o comportamento fora do comum de seu filho, que havia culminado em uma tragédia envolvendo inocentes. Após assisti-lo, é bem provável que muitas pessoas se perguntem o que aquela mulher poderia ter feito para evitar o desfecho trágico. Educação, proteção, acompanhamento psicológico ou psiquiátrico, isolamento, intervenção das autoridades? A criação de um filho esbarra em nuances por vezes muito sutis da construção moral e psíquica de um ser humano.
Ligamos a TV, abrimos os jornais, e nos deparamos com um problema social bastante específico, no que se refere ao comportamento materno. Manchetes:
Jovem de vinte e cinco anos, viciado em crack, foi acorrentado em casa pela mãe em Porto Alegre.
Desesperada, mãe acorrenta filho de treze anos viciado em crack em Piracicaba.
Menina viciada em drogas desde os onze anos é acorrentada em casa pela mãe, na cidade de Parnaíba.
O que dizer dessas mães (e pais), em geral procedentes das classes C e D, que enchem nossos noticiários com episódios em que tentam proteger seus filhos dos desdobramentos perversos do mundo das drogas, através da privação da liberdade? Essas mães que, tendo percebido que algo estava errado, e sem condições financeiras para buscar tratamento adequado, acabam por acorrentar seus filhos como animais em suas casas. Essas mulheres enfrentam os efeitos da abstinência em suas crianças e adolescentes; enfrentam a dor de ver um filho nas condições precárias de um viciado; enfrentam, por fim, as determinações legais que as condenam por “maus-tratos” e o olhar inquisidor da sociedade.
O que fazer então? Omitir-se ou encarregar as próprias mãos do destino de um filho com problemas? Talvez o melhor, como definem os dogmas orientais, seja o caminho do equilíbrio. A busca de apoio profissional, seja através de acompanhamento psicológico ou da intervenção de autoridades como a polícia (no caso de filhos que cruzam a linha da lei e tornam-se criminosos) pode ser uma expressão maior do amor materno do que a determinação de cuidar do problema sozinha.
Sabemos que a atitude das mães que acorrentam os próprios filhos é motivada principalmente pelo desespero e, de modo revoltante, pelo descaso que nasce de políticas públicas ineficientes. É provável que muitas delas conservem também um profundo sentimento de culpa em relação ao comportamento destrutivo do filho. Porém, não podemos perder de vista o fato de que, em casos como esses, mães estão assumindo sozinhas uma questão que é de toda a sociedade, uma questão de saúde pública! Elas não devem enfrentar sozinhas uma questão que nasce na pouca importância que é dada à Saúde por nossos governantes; na ignorância em se lidar com problemas como o tráfico de drogas e na maneira distorcida como traficantes e consumidores são vistos pela opinião pública.
O preconceito e a repugnância ao tratarmos de um tema como as drogas não deve tapar nossos olhos: mães e filhos nessas situações são também cidadãos investidos de Direitos e Deveres sociais. É preciso deixar de tratar o impacto familiar da adicção como um problema individual, pois só assim ele será definitivamente diagnosticado e curado como o problema social que é.
ELISA TABORDA/ andremansur.com
Enviado por ANDRE MANSUR em 20/08/2012
Código do texto: T3839897
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