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MATANDO A SAUDADE

   
- Neíldes, faça o favor de descascar e picar este melão para mim. Estava pensando, hoje cedo,  que já tem quase um ano que trabalha aqui em casa e sei pouca coisa de você.
-   Ah, Júia, não tenho nada pra lhe dizer e, além do mais, sou de famia fraca. Por falar nisso, já vai pra três ano que perdi o meu povo de vista e eu num sei lê.
- Vou escrever uma carta para lá, agora. Onde eles moram?
- Na Bahia, num lugar chamado Barro Preto, na rua Dona Maria. Só num sei o número da casa. Você vai escrevê mesmo?! Que bênção! Deus lhe pague!
Então, começa aí. Maínha, estou com muita saudade da senhora. Dia e noite eu oro a Deus por vocês. Estou morando em Guarapari, no Espírito Santo. É uma cidade muito linda onde só tem gente rica e turista. Estou aqui de ousada.
Espera aí, Júia. Estou lembrano de uma coisa que ela vai glorificar o Senhor de saber. Põe aí: o Adilson, depois que recuperou daquela operação, que ele feiz aí, parô de bebê.
- Que operação é essa?
- Num falei com você, não, Júia? Oia pra tu vê. Ele engoliu a chapa.
- Chapa?! Que chapa???
- A dentadura dele. Era um negócio assim, desse tamanho e meio amarelado.
- Nossa!!! Como foi isso?!
- Vou lhe contar, mas vai picano o melão enquanto isso. Foi assim: meu esposo foi abri uma puã de caranguejo com os dente e quebrô a chapa. Aí, ele foi lá na rua, comprô dessa colinha que você tem, que gruda os dedo da gente, e arrumô ela.
- Quando foi isso?
- Foi numa noite dessa, que nois tinha acabado de carregá, morro a cima, as nossas pouca coisa no lombo, prum cômodo que ele feiz sozinho. Já era tarde e nois deitamo moído de cansado. Adilson pegô logo no sono e quando deu um suspiro profundo, engoliu um pedaço da chapa, com quatro dente agarrado.
- Virgem Maria!!! E aí?
- Aí, fomos no hospital, mas nem tiraram radiografia do pobrezinho; só passaram um remédio pra dor. Vortamo lá todo santo dia e foi a mesma agonia. O pescoço dele foi inchano, inchano, inchano... Ele num comia e nem conversava; só babava. O homem, que já era magro de nascença, ficou mais. Eu morria de dó de vê aquele flagelo.
- Não é possível uma coisa dessa!!! Ninguém o ajudou?
- Graças a Deus, ajudô. Quando inteirô 15 dia certinho de penúria, uma patroa boazinha que eu tinha, que nem quis despedi de mim quando vim pra cá, pediu o esposo dela pra pagá a operação particulá. E de lá pra cá, ele num despejô nem um gole de pinga na boca. Mas, também, quando aquele “fio das unha” bebia era um desatino; virava um bicho e quebrava tudo. Aí, eu era obrigada a lhe dar uma coça. Ainda bem que, no outro dia, ele num lembrava de nada, senão...
- Que coisa triste!
- Isso num foi nada. O pior você num sabe.
- Existe coisa pior?!
- Existe. Oia pra tu vê. Antes da operação, enfiaram uma manguera, goela a baixo no coitado, que por pouco ele não bateu as bota, de tanta dor. Gemia que só ele.
- Nossa! Fizeram endoscopia! Meu Deus! É sofrimento demais! – pensou a patroa.
Neíldes, toma o melão de volta e acaba de picar enquanto vou escrevendo.
- Está bom. Então, coloca aí: logo que essa carta chegá, telefona pra Júia, que, por pura bondade, vai lá em casa tirá uma foto minha, do Adilson e dos menino. E ainda vai fazê uma flechinha e botá: essa é a Tamires, esse é o Danilo e essa é a Jamile, pra vocês vê como eles estão grande.
- O quê você quer que eu escreva mais?
- Nada. Já tá de bom tamanho. Agora, é só mandar um beijo pra maínha, pra minha sobrinha Keilane, pros meus irmão, pros  vizinho e assinar o meu nome.
Quatro dias depois...
- Triiiiiiiimmmm...     Triiiiiiiiiimmmmm....
- Atende aí, Júia, que eu tô com as mão moiada.
- Neíldes! Neíldes! Corre aqui! É a sua irmã! A Nilza!
- Alô! É você, Ni? Como é que você  me achou aquii?!
- Pela carta, ué!
- Ela chegô?! O cartero entregô?! Que home bom! Diga a ele que tô agradecida!
- Digo sim; ele é nosso amigo. Que bom saber onde você está! Fale com a nossa mãe.
- Alô, maínha!!! Que saudade!!! Apesar de tanto tempo, eu lhe amo! Está tudo bem, aí?
- Tudo, filha, graças ao nosso bom Deus.
- Como está o meu irmão? Vivo lembrano dele.
- Ele tá bom. Enrabichô por outra muié e já tem dois fio gêmeo.
- Largô a minha cunhada tão trabaiadera?
- Não. Está com as duas.
-   Júia, olha pra tu  ver. Meu irmão ganhou dois geminho! Não é lindo?
- É sim.  Mas ele ganhou quatro filhos de uma  vez só?
- Não! Só dois menino home!
Maínha, sou eu de novo. Qué dizê, então, que num morreu ninguém aí, né? Meu medo de lhe escrever era de sabê uma notícia ruim. Deus me livre!
- Pelo contrário. Vai nascer muita criança na nossa famia. Sua irmã e um monte de prima sua tão grávida. É uma pena que ninguém casô, mas...
Fia, todos tão lhe mandando um abraço e daqui a uns dia vamo ligá outra vez. Dê lembrança ao meu genro e abençoe os meus neto por mim.
- Maínha, eu lhe amo! Telefona logo, viu? Sua bênção! Fica com Deus!
- Neíldes, vamos enxugar as nossas lágrimas e ver se sobrou daquele melão na geladeira?



Anna Célia Dias Curtinhas
Anna Célia
Enviado por Anna Célia em 11/02/2005
Código do texto: T3973

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Sobre a autora
Anna Célia
Vitória - Espírito Santo - Brasil, 70 anos
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