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UM ANJO NA QUINTA DOS INFERNOS


“No coração senti que despertava
o espírito amoroso que dormia:
depois, vindo de longe, Amor chegava
quase irreconhecível na alegria,
a dizer: “Honra a mim, que não me honravas.”
e sorria de quanto me dizia.”
Dante Alighieri

Abriram as portas do inferno. Gabriel observou Beatriz descer para o porão. A mulher entrou no bar, sussurrou algo em segredo para o garçom e desceu as escadas. Havia uma luz difusa e Gabriel pode ver quando as portas foram abertas com cores fortes e muitos acordes. Seduzido pela desconhecida, Gabriel resolveu acompanhá-la, desceu ao subterrâneo e entrou discretamente na sala repleta de pessoas que se cumprimentavam efusivamente, cantavam e recitavam poesias líricas e malditas...
Gabriel, como um anjo de asa quebrada, descansou no solo mundano, apoiou-se no canto da sala e acompanhou o trajeto da mulher. Entre tantos olhares e risos, pode sentir o riso solto e o olhar de Beatriz... Havia algo de triste no brilho dos seus olhos. Havia promessa de felicidade entre as linhas dos seus lábios.
Música, poesia, teatro... Todos eram artistas ou arteiros, brincavam com as palavras e cantarolavam as emoções nos violões dedilhados. Beatriz foi chamada ao centro do bar, percorreu com os olhos o porão enquanto sorria. Beatriz era poeta e iria declamar, mas abandonou os versos no esquecimento quando encontrou os olhos de Gabriel...
Talvez um verso de Dante Alighieri... Não havia palavras para definir a paisagem esculpida no discreto sorriso do homem ou para acompanhar os belos acordes que encantavam a mulher.
O silêncio de Beatriz gritou os poemas mais exacerbados, a busca de si, o encontro do outro, o olhar e talvez... Gabriel, com a feição suavizada pela descoberta de um nome e de uma emoção, libertou a música divina da lira de Orfeu em busca de Eurídice, paralisou o tempo e, na ousada travessia dos oceanos desconhecidos, reacendeu o mito do amor romântico.
Durante toda noite seus olhares dançaram indefesos na multidão. Aproximavam-se tímidos e eram afastados pelas performances da “quinta dos infernos”, pelo calor do reencontro do grupo, pela distância que separava os dois mundos. Dois olhares que se desnudavam no desejo do conhecimento do outro e no medo da experiência de ser no outro a realização dos anseios.
No final da noite, Gabriel se apresentou, sorriu e com a voz meiga anunciou um amanhã. Um homem com nome de anjo na quinta dos infernos. Beatriz retribuiu com o significado de seu nome e a possibilidade de fazê-lo feliz. Certamente amanhã...
O novo olhar despiu as asas e apagou as narrativas anteriores. Libertos dos anjos e demônios, Gabriel e Beatriz eram apenas um homem e uma mulher sem máscaras na madrugada.


N.A.: As “Quintas dos Infernos” começaram com um pequeno grupo de escritores e jornalistas e se transformaram em encontros memoráveis das várias manifestações artísticas em Curitiba. As “Quintas dos Infernos”, promovidas pelo Café & Cultura, acontecem na primeira quinta-feira de cada mês, a partir das 19 horas, no porão do Hermes Bar, com a apresentação de músicos, performances teatrais e intervenções poéticas. Ocasiões perfeitas para escrever a ficção na realidade.

Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 04/08/2005
Código do texto: T40143
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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