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Como era Verde o Meu Vale





Como era verde meu vale! Ao longe se podia ver a cabana cujo telhado era pintado de amarelo. As paredes feitas de madeira maciça eram da cor marrom e, sobressaiam no verde do gramado que circundava toda a casa. À volta da cabana algumas árvores cresciam frondosas, onde os pássaros encontravam abrigo. As amoreiras ficavam cobertas de pequenos frutos da cor rosa claro chegando até ao roxo escuro. As folhas pequenas e quase ovais da cor verde claro balançavam como se acenassem num longo adeus. As centenas de borboletas multicores, eu diria em bando, esvoaçavam junto ao regato em busca da umidade deixada pelos frutos em decomposição. O mourejar das águas cristalinas a correr no leito do regato fazia com que me sentisse relaxada e quase inerte, no gramado. Deitada à margem, eu olhava para cima e visualizava o céu límpido sem uma nuvem sequer. O azul era intenso, e muito no alto via-se pequenos pontos negros, nos indicando que urubus vasculhavam a imensidão a procura de alimento. Como eu sonhava tornar-me uma dessas aves! Eu tinha inveja da liberdade que possuíam porque nada as detinham. Eram livres, sem se preocupar com o futuro, viviam o dia a dia, apenas o momento e nada mais.
Em pé à margem da estrada de terra eu podia visualizar todo o vale que se descortinava logo abaixo. Era um verdadeiro tapete verde. Que visão! Ainda a tenho nítida em minha memória como se fizesse parte constante de minha vida. Até agora, sinto o cheiro das frutas maduras pendendo dos frágeis galhos que as sustentavam com vida. Ainda posso ver mamãe com seu avental branco, sentada no terraço em sua cadeira de balanço. Logo após preparar a geléia de maçãs de que tanto gostava. Posso sentir a brisa suave batendo em minhas faces de criança ávida por descobrir mais da vida. A vontade que eu sentia era de atirar-me da grande pedra à margem da estrada,  que era o marco do vale. Eu tinha certeza que se o fizesse eu poderia voar e, planaria sobre a fazenda. Mas, nunca tive coragem de ser tão ousada! Chegava a ponto de passar horas no local imaginando como seria.
Mas o que mais me lembro, era das tardes em que eu saia com papai para caçar passarinhos. Embrenhávamos, silenciosamente, pelos cerrados que a mim pareciam uma floresta, a procura de codornas. Eu ficava estonteada com a capacidade de papai em perceber onde elas se encontravam. Ele dizia-me sussurrando em meu ouvido: “Atira uma pedra!” Como se fosse a missão mais importante do dia eu a jogava e podia ver, fascinada, os pássaros voando em desatino. Vários caiam, e a nossa mascote que estava à espreita saia em disparada, à procura das pobres aves, agora sem vida. Quando regressávamos para casa, eu vinha montada no pescoço de papai, porque já estava muito cansada para andar. Ele era o meu herói, me dava segurança e não tinha medo de nada.
Como era verde o meu vale! Digo isso porque agora estive no local e só encontrei amontoados de casas com seus telhados enegrecidos. As árvores frutíferas já não existem. Até o marco do vale foi removido, restando em seu lugar apenas um buraco imenso. Procurei pela inocente menininha, mas só encontrei uma mulher adulta repleta de afazeres e obrigações. Trazendo nas faces a expressão de intelectualidade, andando ereta com passos miúdos certa de que galgou o mundo. Porém, morrendo de saudades daquela menininha que dominava o verde vale de minha infância.

Ester Machado Endo.

mendo
Enviado por mendo em 04/08/2005
Código do texto: T40214
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