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SE NÃO GOSTA, COMA MENOS

“A palavra não me pertence.
Ela sou eu
e eu, apenas seu instrumento.
Nada.
Não a escrevo com tinta.
Mas com lágrima.
Chorada ou não.
Minha ou emprestada.
Não importa.
Se não gosta de sal,
ou me quer açucarada,
não me lamba com seus olhos.
E feche a porta.” 
(Com gosto de sal, Débora Denadai)
                                                                                          

Talvez fosse até desnecessário expandir um tanto mais o texto do poema, de vez que ele é bastante claro e diz logo a que veio. Mas como foi escrito por mim mesma, isso me dá lá uma certa liberdade para “estica-lo” um tanto mais e alongar-me naquilo que julgue interessante. Para mim ou para aqueles que costumam ler o que escrevo, cujo perfil creio já conhecer um pouco. E estes, já sabem o meu jeito. E se continuam a ler-me, certamente é porque minha maneira de escrever os agrada. Vantagens de uma democracia: você não é obrigado a fazer nada. Se faz, não reclame, foi escolha sua.
Este texto do alto foi escrito exatamente por isto: alguém, em algum momento julgou que eu escrevia coisas de forma um tanto “ácida, agressiva e, por vezes, arrogante”. Imagino por detrás destas palavras que eu tenha recebido o carinhoso apelido de “dona da verdade”, coisa que passo bem longe de ser. E, lamento pelos que são, porque eu certamente passaria a quilômetros de seus portões. Sorte deles ou minha, tanto faz. Só digo em minha defesa que escrevo sobre o que gosto e do jeito que gosto. Há leitores para todo tipo de texto e, de modo algum, me incomoda que este ou aquele que não se agrada do meu jeito decida deixar de ler-me. Sempre haverá os que gostem.
O que me parece realmente arrogante não é o fato de alguém expor sua maneira de pensar do jeito e no estilo que prefira. Arrogante é querer dizer ao sujeito que ele mude sua forma de escrever porque parece arrogante ou que chame de iliteracia (palavrinha vetusta e arrogante esta, não?) aquilo que foge a um estilo clássico, que não se preocupa em meter réguas na poesia e correntes no vocabulário.
Pior: mais que arrogância, isto é o sintoma mais claro e óbvio do autoritarismo e da incompetência para gerenciar diferenças. É como querer freqüentar um bordel e dizer às senhoras que lá trabalham que usem hábito de monjas.
Mais que isso: é estar morto e ainda não ter consciência de já estar no além. Especificamente sobre o uso da língua, falei um pouco disso no texto em que dizia “que a língua não é pra dinossauros”. Dinossauros sumiram do mapa exatamente por isto: arrogantes, duros e sem capacidade para adaptar-se às mudanças do planeta, só puderam mesmo sair de cena.
Sei que estou sendo repetitiva, mas certas repetições nunca serão demais. Democracia é isto: se não gosta, que coma menos. E não encha a paciência do próximo com seu mau humor ou sua obsolescência e franca decomposição.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 06/08/2005
Código do texto: T40795

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154014 leituras)
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Débora Denadai