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Meu velho e minha patroa

Rosa Pena

                                             

In memoriam Evelin, minha mãe


— Rosa, hoje vou sair mais cedo. Meu velho não está nada bem, a pressão subiu de novo.
Dona Ana, casada há quase cinqüenta anos com seu Suarez, não disfarça a preocupação com o parceiro, eterno companheiro.
Meu convívio com este casal é quase diário. Prestam serviços no colégio em que trabalho.
Seu Suarez aparece sempre no final da tarde, com uns sonhos fresquinhos, recém-saídos do forno, paixão de dona Ana:


— Cadê minha patroa? Fiquei esperando sair. Estão no ponto pra ela — Ele fala para nós, com um brilho bonito no olhar, vendo-a de longe... perto.
Fico apreciando este relacionamento e imaginando o curso da vida deles. Sinto uma certa “inveja” positiva. São pessoas deliciosamente simples, que não têm vergonha de demonstrar felicidade. Quando vão se apresentar para terceiros, falam com orgulho:


— Meu esposo.
— Minha senhora.


Dona Ana traz vestígios de uma grande beleza na juventude. Ainda vaidosa, usa ruge e um batonzinho leve na boca. Os eternos brinquinhos de pequenas pérolas parecem que já nasceram em suas orelhas. É sabido que foi cerzideira de mão cheia, antes da lycra dominar o mercado têxtil.
Seu Suarez, sempre com uma camisa limpíssima, cheirando a talco de neném, faz questão de pentear com capricho os ralos cabelos brancos. Usa um pente no bolso da camisa e sempre um lenço no bolso da calça.


Ah! O lenço! Este está sempre pronto para forrar a cadeira em que sua patroa vai sentar. Neste casal, o amor é ostensivo.

Queria ter tido um amor assim, onde se percebe que todas as etapas foram superadas com dignidade.
Gostaria de ter “o meu velho” para controlar com carinho o sal da comida dele e ter a certeza do controle do meu açúcar. Saber que teria um lenço estendido para eu sentar ou para enxugar minhas lágrimas.
Assistir TV ao final de cada dia, com uma camisola de algodão perfumada em alfazema, sentada ao ladinho do meu esposo, com seu pijama xadrez e calçando meias de lã para aquecer nossos pés.
Perceber que nossos netos não falariam de sexo na nossa frente, pois sequer imaginariam que já tínhamos confundido tanto as nossas pernas em noites eternas. Ficar com meu velho ao sol, passar férias em estações de água, fazer seu prato predileto, receber em troca seu sorriso aberto.
Juntinhos sentiríamos o vigor se acabando, amigos partindo, mas sempre de mãos, já enrugadas, dadas.


Só pediria a Deus uma coisa: que o levasse primeiro, para poupá-lo da dor da perda deste amor. Depois da partida de meu velho, meu coração se encarregaria de levar-me.
É certo que iria reencontrá-lo.

 livro PreTextos

 
Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 01/12/2004
Reeditado em 04/04/2014
Código do texto: T415
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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