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"TEORIA DO MEDALHÃO"



“O sábio que disse:“a gravidade é um mistério do corpo”, definiu a compostura do medalhão.”
Machado de Assis

Lembro bem quando meu pai, encantado com um descobrimento, chamou-me na sala e leu um conto com tom impostado e respiração enfática. Acho que eu não tinha doze anos. Permaneci sentada na poltrona enquanto ele me fitava com brilho nos olhos, buscando em mim o mesmo entusiasmo.
Teoria do Medalhão de Machado de Assis. Ao final da leitura, os ensinamentos de Maquiavel, expostos no diálogo entre pai e filho, estavam presentes em meus pensamentos. Ainda de forma confusa, a realidade se apresentava como um retrato, uma imagem que eu até então apenas pressentira no mundo adulto.
Meu pai conseguiu compartilhar o prazer do descobrimento de tão irônico e real perfil, envolvendo-me em seu mundo cotidiano e tornando-nos cúmplices na percepção dos falsos brilhos de algumas autoridades. Mais do que o conhecimento da obra literária, ele me presenteou com um personagem plural capaz de se adaptar em todos os espaços da vida pública e privada.
Duas décadas... O conto ainda brilha em minhas lembranças. Sentada no sofá da sala, assisto a vários depoimentos de representantes do poder público e eminências pardas, inquiridas sobre as irregularidades denunciadas e vastamente noticiadas nos meios de comunicação. Jogos de cena, frases convencionais, apelos históricos...
Reconheço a postura sugerida no conto, quando o pai aconselha o filho de vinte e um anos a se tornar um medalhão e abandonar as idéias para assumir o emprego das tantas figuras expressivas, dos ditos históricos e dos discursos prontos com frases feitas tiradas do lugar comum. Um falso brilho. Um medalhão!
As expressões em latim e os brocardos jurídicos se modernizaram em técnicas de manipulação da linguagem assessoradas por sumidades da publicidade. Discursos prontos que não convencem e não dizem nada, gestuais teatrais, questionamentos vazios e o uso intenso dos adjetivos a fim de colorir as provas substantivas de uma realidade crua.
Novos palanques tentam ofuscar o escândalo e dissipar as atenções. Palavras apaixonadas que não prestam contas dos fatos e buscam conquistar a emoção de um povo sofrido.
O acusador fala sobre o despertar dos seus instintos primitivos com o comportamento ensaiado para o grande público televisivo. A testemunha, vestida com sobriedade em tons azuis, responde humildemente exaltando os feitos de sua vida.
Assisto ao espetáculo, atônita, sem definir se é uma tragédia ou uma comédia. O enredo é tão absurdo e parece interminável. Os personagens se comportam de forma dispersa como se contracenassem em peças fragmentadas para públicos diferentes. Tento encontrar o medalhão no cenário e sou ofuscada pelo seu reflexo na direita, na esquerda e no centro da apresentação... Talvez se prolongue na platéia...
Diálogos marcados com ironia e acusações teatrais. Não posso deixar de recorrer ao conto e reler o ensinamento do pai: “Somente não deves empregar a ironia, esse movimento ao canto da boca, cheio de mistérios, inventado por algum grego da decadência, contraído por Luciano, transmitido a Swift e Voltaire, feição própria dos céticos e desabusados.”
O conto Teoria do Medalhão foi publicado originalmente na Gazeta de Notícias em 1881. Um texto literário do grande escritor Machado de Assis. Uma denúncia grave que se concretizou na história política, contaminou o nosso cotidiano e nos tirou as ilusões infantis de uma realidade sem falsos brilhos.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 11/08/2005
Código do texto: T41983
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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