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"Recordações de uma menina"-Capítulo 2

SÉRIE RECORDAÇÕES DE UMA MENINA

CAPÍTULO II
Década de 30
Bairro de Ipanema
 

 Morávamos em Ipanema nessa época. Rodeados de muitos amigos. Aliás, o que noto agora é que as amizades de antigamente pareciam ser mais verdadeiras, mais sólidas, mais consistentes, porque não podiam viver mais sem a companhia uma das outras. Eram assim inseparáveis mesmo.

 Lá em casa, minha mãe tinha um círculo de amigas, que foram pra mim verdadeiros exemplos de fidelidade, compreensão, respeito e muito amor. Vêm, à minha cabeça, a freqüência das reuniões, das visitas entre elas, para tardes maravilhosas que passavam juntas, entre si. Cada dia da semana elas se reuniam uma na casa da outra, portanto nunca havia, em hipótese alguma, oportunidade de estarem sem se encontrar. Agora, todo domingo a concentração era na casa da Tia Zinha, isso era invariável, todo domingo à noite. Aí, então é que se concentravam todos os das reuniões e os de fora delas para verdadeiras festas de tanta alegria.Eu adorava isso, pois curiosa como sempre fui, ficava por ali só corujando as conversas, que iam desde problemas do dia a dia familiar até moda, cinema, culinária, como qualquer outro assunto que viesse, inclusive umas fofoquinhas de leve, tão inocentes, sempre viradas para o bem, isso é que elas diziam.

 Quando o dia era lá em casa era uma festa, pois os quitutes saiam sempre, muito variados inclusive, como se elas quisessem se suplantar em dotes culinários. E tome eu de recortar receitas de revistas as mais variadas possíveis, para não ficar monótono. Isso era a minha obrigação, separar por ingredientes para facilitar depois a escolha. Nessa ocasião sobrava sempre pra eu lamber os restos que ficavam grudados, de massas de bolos, caldas, recheios, transformando assim minha vida num paraíso adocicado. Era um verdadeiro pitéu, quando as sobras eram de recheios de sanduíches, de salgadinhos variados que me faziam ver o céu nos diversos sabores.

 Com tudo isso, vinham também minhas obrigações que eram ajudar a ralar coco, queijo e o que aparecesse pela frente. Pela minha pouca idade, na época, não eram muito exigidas coisas que mesmo não saberia fazer, mas rechear as tarteletes com creme de camarão, pingando aqui e acolá, petit pois e azeitonas cortadinhas consistia em um pulo de imensa satisfação, porque era um recheio pro salgadinho e outro pra minha boca.

 Normalmente acabava sendo expulsa da cozinha e ter que ir estudar no meu quarto, mas com a pança cheia e uma dor de barriga depois. Ficavam tão alegres entre si que era uma felicidade imensa ficar observando as conversas recheadas de risadas e muita alegria.

 Mamãe tinha mania de fazer uns sanduíches que até hoje quando vejo vêm à minha cabeça as lembranças da sua participação: eram sanduichinhos, nos mais variados sabores com formato de rocambole, era sua marca patente, aliás não podiam copiar nada uma da outra, era marca registrada de cada uma. O que mais me chamava a atenção era a qualidade das reuniões, a qualidade da amizade e, sobretudo, a felicidade que em vê-las assim num paraíso.

 Costumava ver e compartilhar de tudo, a não ser quando os assuntos eram ditos reservados é que eu era obrigada a me retirar do recinto, mesmo com lágrimas de crocodilo pelo rosto. Às vezes calhava ser o dia de assistirem algum filme muito falado no Cinema Pirajá, Ipanema, Roxy, ou Metro, uns ainda existentes, que me era vedada a presença, pois criança era sempre criança, diziam, era coisa só pra gente grande. Todas moravam perto umas das outras: nós na Rua Alberto de Campos, tinha outra na Rua Maria Quitéria, na Barão da Torre. Nascimento Silva e duas na Barão de Jaguaribe, mas a de número 300 é que não me sai da memória, pois ali residiam pessoas que eu tinha uma amizade, uma verdadeira admiração infantil, era a figura central das reuniões das mulheres: Tia Zinha, casada com Alvaro Marins, conhecido no meio artístico como "Seth", com seus desenhos a bico de pena maravilhosamente espetaculares, que me deixavam extasiadas.

 Este fazia parte do grupo dos amigos homens que falarei a seguir. Ainda tenho muita coisa a comentar, mas ficarão como tópicos nas memórias mais adiante, pingando aqui e acolá.
 
Myriam Peres

http://www.myriamperes.mayte.us

Myriam Peres
Enviado por Myriam Peres em 11/08/2005
Reeditado em 11/08/2005
Código do texto: T41988
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Sobre a autora
Myriam Peres
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 86 anos
473 textos (54620 leituras)
5 e-livros (275 leituras)
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Myriam Peres