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PASSAGEIROS E A MÁGICA DE VIVER

Episódio mar e flores: a poesia vive.

O Passo de Torres, pequena cidade ao sul de Santa Catarina, na divisa com o Rio Grande do Sul, é um pedaço de terra banhado pelo Oceano Atlântico e o Rio Mampituba.

Uma ponte pênsil segura duas margens de terras e gentes, num ir e vir constantes, fugidas da canícula nos meses do verão. No mais é tudo estação dos ventos e o movimento dos barcos, ora prenhes, ora minguados de frutos do mar.

Homens e mulheres marcados pela ação da intempérie.

Os olhos dos faróis da Barra contemplam o mar, vesgos com a ferrugem da maresia. Feliz quem pode fruir um clima tão propício para o estro da poesia.
 
Enquanto escrevo, uma gaivota baila no ar. O poeta, extasiado, capta em versos o bailado aéreo nos salões do pensamento. Seus pés acariciam a areia e também bailam na trajetória de raízes e ramas.

Entre peixes e mar há um jardim de verdes e de bom gosto. Um recanto de felicidade e aura amiga. Neste transita um espírito em que o Amor habita.

Ora debruçada sobre os canteiros, derramando punhados de terra como se fora uma bênção, ora brincando com os peixinhos multicoloridos, no aquário, uma mulher plena de dotes cumpre as anotações de sua bela e longa viagem corsária de talento e peregrinações.

Por vezes, estendida na rede, aberta ao leque da permanente juventude, contemplativa de suas plantas, ciosa de sua função no mundo em que vive e atua, a musa é a poetisa Ney Azambuja, em seus gloriosos noventa anos.

É pena que os cerca de cinco mil habitantes do lugar não saibam que convivem com esta ave rara, que cuida da palavra poética com o mesmo esmero com que orvalha orquídeas no herbário.

Talvez porque a luz brilhe para quem não tem olhos para captar a sua exata correspondência ou por ser a Musa a anônima observadora do espetáculo que escapa aos olhos da comum criatura.

Também porque o Poeta está sempre além do tempo. O artista da palavra é o único condenado ao anonimato enquanto vivo. Os seus contemporâneos sempre serão algozes da Poesia, porque esta é coisa de louco e sonhador. Mesmo que, por vezes, com ela criem ilusões, durmam e façam filhos para lhes reconhecer o talento.

Ficam suas estátuas, bustos, hermas nas praças, sofrendo sol, vento e chuvas, legendários espantalhos de concreto, pedra, bronze, afugentando espíritos maldosos e a santa ignorância dos desprotegidos.

Nenhum deles tem espada na mão, como Gabriel, o anjo protetor dos céus, ou os guerreiros de Grécia, Roma ou civilizações bem havidas. Alguns têm olhos vazados e morreram de tédio na fogueira das virtudes, outros permanecem em pedra, nos cafés da prazerosa e antiga boêmia, como é o caso do grande Fernando Pessoa, no Café "A Brasileira", em Lisboa.

Sobra-nos, assim, a incontida alegria de privar com Ney Azambuja e fazer parte de sua mágica de viver.

Algum livro denunciará o anônimo ao futuro. Pelo tempo perdido a posteridade pedirá desculpas.

– Do livro CONFESSIONÁRIO – Diálogos entre a Prosa e a Poesia, 2005 / 2007.
http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/42043
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 12/08/2005
Reeditado em 24/07/2008
Código do texto: T42043
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 70 anos
2581 textos (709801 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 11/12/16 12:31)
Joaquim Moncks