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E daí?

E daí?


Ela aparentava uns 40 anos a se ver pela tintura que coloria seus cabelos, por certo já manchados de fios brancos aqui e acolá. Estacionou seu carro sobre uma enorme marca, símbolo de alguém sentado em uma cadeira de rodas. Não era a única vaga disponível no estacionamento; era apenas a mais próxima da porta de entrada da loja. É a vaga reservada aos paraplégicos, aos que andam em cadeiras de rodas – também chamados “cadeirantes”, uma palavra horripilante.
A balzaquiana, assim identificada por sua idade, e não por sua preferência literária, certamente entende que não violou nenhuma regra, pois prontamente respondeu-me “e daí?”. Isso porque chamei lhe atenção para o que imaginava ter sido apenas uma temporária falta de atenção.
Não era falta de atenção. Era intencional. A mal educada senhora balzaquiana havia estacionado seu carro sobre a vaga reservada, intencionalmente; para estar mais próxima da porta da loja. Achava-se no direito de usurpar aquele lugar especial utilizando-se dele para seu conforto. Seu uso indevido, porém, significa abuso. Espaço, que para os usuários daquela vaga, todos com reduzido domínio físico, significa possibilidade.  E daí? – disse-me ela.
“E daí” é companheiro de “o que é que tem”, que faz parte de uma gangue chamada “não se meta”. Esta, por sua vez, rival da “você sabe com quem está falando?” Maldita frase essa, para a qual nunca tenho resposta imediata, porque sempre me pega de surpresa, serve, entretanto, para esclarecer todas as mazelas dessa nossa sociedade pan-demônica.Com essa patética pergunta, vem à resposta para quase tudo, aqui na Grande Nação Pindoba.
Vulpino Argento o demente, que está sempre espiando por sobre meu ombro direito, as coisas que escrevo, e adivinhando meus pensamentos, me apresenta uma lista.
- Mestre – odeio quando ele me trata assim – veja só essa lista.
- Lista? – perguntei apavorado – mais uma lista, Vúlpi?
- É para ajudar meu mestre! – voltou meu ódio.

- O senhor está com seu carro sobre a faixa de pedestres!
- E daí?
- A senhora está votando num candidato que promete 10 milhões de empregos. Isso é impossível!
- E daí?
- A sua greve, de 180 mil pessoas, está prejudicando 95 milhões. Não haverá outra forma de reivindicar o que lhe parece justo?
- E daí?
- Do jeito que vai, essa investigação não vai dar em nada.
- E daí?
- Entregar pra Deus, e só, não é solução!
- E Daí?
- Isso é super faturamento.
- E daí?
- O dinheiro roubado pelo túnel perfeito não tem seguro.
- E daí?
- 85% dos candidatos inscritos nas provas da OAB, foram reprovados.
- E daí?
- Seu carro está em fila dupla. Há um congestionamento de meio quilômetro antes de se poder chegar a essa escola!
- E daí?
- Vingar-se de alguém é o mesmo que comer uma feijoada congelada.
- E daí?
- O senhor não pode atender seu celular nem agora nem aqui. Estamos no teatro e a peça recém começou!
- E daí?
- Mesmo sendo Governador o senhor não pode deixar de pagar os precatórios!
- E daí?
- Então, nesse momento, temos dois Presidentes: um visitando a Venezuela e outro, o vice, no lugar daquele aqui!
- E daí?
- O senhor apenas leu um único livro o ano passado!
- E daí?
- O senhor vai ser multado!
- E daí?
- Querida, com um só dos teus problemas, você estraga todas as outras tuas coisas boas.
- E daí?
- Mas taxa, senhor, não é imposto!
- E daí?
- O senhor, o senhor, e o senhor também. Todos estão nas listas da CPP, do BBHO, da PQP, da CMRJ e na do CDMNHUGFR.
_ E daí?
- Para falar com um dos nossos atendentes, tecle... Alô, a conexão caiu de novo!
- E daí?
- Não pode, o que você vai fazer é contra a lei!
- E daí?
- Assim não dá!
- E daí?
- Não agüento mais!
- E daí?
- Desisto! Vúlpi – disse já exausto.
- E daí?
- Como?
- Desculpe mestre! – disse Vúlpi saindo como um raio pela janela do 23º.
  Temos, pois, todos nós, uma única resposta para todas as questões. Na ponta da língua. Pobre Sócrates. Platão, coitado. Todos vocês aí no Olimpo, atenção! Temos a resposta. A definitiva e final resposta para tudo. Hei! Vocês aí no Céu Hebraico! Conseguimos! Muitos de vocês, talvez, ainda não saibam de todas as novidades, mas a Terra é redonda, a lua é desabitada. Já chegamos lá. Não há ninguém, nem nada na lua, ela é muito sem graça. Também descobrimos outros mundos, que chamamos de planetas. Descobrimos também que há um só Deus – embora nem todos acreditem nisso. Aqueles outros não valem mais. Foram todos desmascarados, se é que entendem o que estou dizendo. Descobrimos e inventamos muitas outras coisas. E, finalmente, descobrimos tudo e sabemos tudo sobre todas as coisas. Aprendemos a justificar. A arranjar motivo e razão para todas as nossas bobagens. A vida agora se tornou muito mais simples. Não há mais questionamentos. Sabemos quem somos, para onde vamos, de onde viemos e, que diabos, enfim sabemos até o que é que estamos fazendo aqui. Para nós, habitantes e filhos da Grande Nação Pindoba, “e daí?” não é uma pergunta. É uma definitiva resposta.
CESAR CABRAL
Enviado por CESAR CABRAL em 12/08/2005
Código do texto: T42088
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
CESAR CABRAL
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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