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"Recordações de uma menina-Capítulo 3"


  SÉRIE RECORDAÇÕES DE UMA MENINA

Capítulo 3
Bairro de Ipanema
Década de 30


   Naquela época, em que tudo era tão diferente, fazia a gente se fixar muito mais nos detalhes, para poder observar como tudo iria ser , mais adiante, modificado. Aos olhos das crianças, em que essas miudezas, assim dizendo, se engrandecem tanto, não só os assuntos que mais lhe apetecem, como os que, na mentalidade delas, transformam também suas mentes, pra seu próprio orgulho, em fontes de verdadeiras recordações posteriores. Digo isso porque comigo foi assim que aconteceu. Dava extrema atenção às coisas que nem mereciam tanto, relegando as outras a planos inferiores. O adulto não sabe explicar como passou despercebido algo aos seus olhos que seria de grande valia, mais tarde. Criança é fogo! Quanta inteligência! Surpreendia lá em casa em saber de coisas imperceptíveis, como por exemplo, o local em que eram deixados valores, jóias, até miudezas de dentro de casa que tinham sido largados de qualquer maneira e em qualquer lugar e que seria um transtorno na hora das procuras.

   Eu era a taboa de salvação, indicando aonde eu vira colocá-los. Porque era extremamente observadora. São apenas pinceladas para dizer que, em menor idade, somos sempre úteis e nunca só fonte de canseira para os pais. Lá em casa tínhamos muita disciplina e responsabilidade que eram a nós impostas. Cada um era responsável pelo seu quarto, guardando os brinquedos nas respectivas prateleiras e juntando o material escolar nas gavetas, com o maior rigor, depois de utilizados. A lengalenga dos que não faziam direito era uma constante. Era como se fosse um horário, por isso tínhamos sempre tudo à mão e na hora certa. Não me arrependo disso tudo, porque me incutiu, desde cedo, a responsabilidade e conduta para minha vida futura. Meus irmãos eram renitentes em acatar indicações maternas, eram bagunceiros mesmo, não se domavam com facilidade, mas como contra força não há resistência, tinham que aceitar mesmo.


   O dia a dia era praticamente igual, mas sempre pintava alguma novidade e isso nos animava bastante em considerações infantis. Dias de semana significava só estudo, escola e deveres de casa. As dúvidas eram trocadas entre nós mesmos e, se difíceis, com o papai à noite. Fins de semana tínhamos programação diferente, pois íamos à praia nos deliciarmos daquela maravilha que era naquela época. Acordávamos cedo muito animados, tagarelando alegremente. Naqueles dias não aborrecíamos mamãe com medo dela acabar com nossa farra tão feliz: ir à praia. Que maravilha! Que sedução, nos banharmos naquelas águas limpíssimas, tão transparentes que chegávamos a ver nossos pés, tal a nitidez. Hoje em dia tudo mudou, não temos mais esses detalhes para comentar. Nós, nossos amigos nos reuníamos em pontos combinados com aquela quantidade de barracas multicores armadas muito próximas, dando a oportunidade da reunião de pessoas que se queriam tão bem, reunião muito conhecida na época pela felicidade que deixavam transparecer para todo mundo.

   Eram gargalhadas, eram conversas tão alegres entre si que davam inveja aos passantes. Íamos até meio dia quando nos dispersávamos para cada um curtir seus almoços em suas casas. Às quintas feiras, era dia de matinê depois da escola, dia em que saíamos mais cedo da aula , nos cinemas próximos a nossa casa com mamãe, isso se tivéssemos nos comportado bem em casa e estudado bastante. Aos domingos, depois da missa e da praia, se tivesse algum filme interessante, reuníamos com o pessoal de Ipanema para curtirmos juntos os programas. De noite casa da Tia Zinha, isso era uma constante. Nos aniversários, que maravilha recordar, porque tínhamos mais reuniões e felicidades para sentirmos juntas mais e mais.

  Éramos grupo de maravilhas, como éramos conhecidas. Nos aniversários, lá dentro aquela mesa transbordando de guloseimas, as mais variadas, enfeitadas com todas as pratas, cristais que vinham abrilhantar nossas comemorações. A mulheres ficavam dentro das salas conversando, as crianças correndo feito loucas em folguedos infantis e, os homens, por incrível que pareça, ficavam conversando na calçada em conversas ditas privé, sentados em cadeiras de vime, o que era muito comum na época.

   Adorava sentar em cadeiras de balanço e ficar corujando as conversas, mas era logo enxotada para longe. Essas recordações, de tão gratas e felizes, me dão muita tristeza porque não existem mais e, muita alegria em ter podido usufruir de tudo isso. Em Ipanema, papai chegava mais cedo em casa, depois que nos mudamos para o Leblon, a nossa vida modificou bastante porque ele tinha que produzir mais pelos compromissos que tinha assumido. Lembro do dia em que ele adentrou uma tarde em casa, com um sorriso estampado no rosto e uma felicidade enorme no coração. Disse: pessoal, olha aqui! Novidades pra vocês! Papai acabou de comprar um terreno no Leblon para construirmos nossa casa.

   Foi uma gritaria de alegria. Pulávamos feito doidos numa farra danada. Mamãe irrompeu num choro convulsivo, de muito desespero. Leonidas, como você teve a coragem de comprar terreno naquele areal? Aquilo lá é uma aldeia! Como vamos viver lá com as crianças? E tome choro. Ele, entre atônito e triste, explicou que não era nada disso, que o Leblon era um bairro promissor e, futuramente, seria um dos melhores do Rio de Janeiro. Nada a convencia no momento, mas depois deles conversarem a sós, ela ainda com o rosto inchado de chorar, teve que aceitar.

   Nessa mesma semana foi a tropa toda conhecer o dito cujo. Além de areal era um matagal danado, com ruas ainda sem calçamento, mas com os terrenos já demarcados. Eu achei uma beleza e fiquei o tempo todo elogiando o mais que podia para mamãe se alegrar. O tempo fez ela mudar de idéia e em seguida começar, animadamente, a combinar com papai a traçar arquitetonicamente o que seria nossa casa futura.

   Não havia outro assunto lá em casa, só sabíamos conversar e dar palpites os mais diversos possíveis, muito deles aceitos e postos em prática. Papai, com seu talento artístico, começou a detalhar com seus desenhos maravilhosos, junto com o arquiteto seu amigo, levando para o papel aquilo que considerava de mais bonito para a época. Enquanto ele e mamãe combinavam como queriam que ela fosse, nós, os filhos, nos embolávamos em lutas, em sopapos,numa euforia louca de felicidades. querendo uns coisas melhores que os outros.  Final: bolacha em todo mundo e ida pra cama cedo.

Myriam Peres
 



Myriam Peres
Enviado por Myriam Peres em 13/08/2005
Reeditado em 13/08/2005
Código do texto: T42467
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Sobre a autora
Myriam Peres
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 86 anos
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5 e-livros (275 leituras)
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Myriam Peres