Foi brincando de casinha que tomei gosto pela arte da culinária, desde menina. Tinha um fogãozinho de barro e panelinhas de ferro. Fazia comidinha de verdade. Acredito que cozinhar é quase um ritual de antigos alquimistas, que transformavam os alimentos no exalar de aromas das panelas invadindo a casa, no crepitar da lenha no fogo. 

Muitas vezes diante de um fogão a lenha, cheguei a sentir o cheiro da cozinha de minha infância, dos doces de goiaba no tacho de cobre, das compotas de figo na cristaleira, do tempero do almoço de domingo, dos causos à beira do fogão, da pergunta carinhosa da Vó – está com fome minha filha? Tudo revivido em momentos preciosos que só a comida é capaz de proporcionar.
 
Cada sabor é um retorno às origens, carregada de sentidos e lembranças que vem a tona, como pitadas de tempero que dão um toque singular a vida.
Um olhar atencioso em uma receita revela os gostos de uma época, o estilo de vida, a reunião de texturas e sabores que são transmitidos de geração em geração.

 Quem não desejaria conhecer o segredo do feijão que só a mãe sabe fazer? Quem não gostaria de descobrir a fórmula mágica dos bolinhos de chuva da avó? Preparar uma receita é uma forma de reviver maneiras e gestos, principalmente se nos fazem lembrar de pessoas queridas, assim se transforma num ato de amor, pois, transmitimos nossos sentimentos ao cozinhar .

Uma receita inesquecível é de uma comida que minha avó Geralda fazia quando mamãe estava de resguardo. Na roça há um costume: uma mulher ao dar à luz precisa comer sopa: tal iguaria é uma canja bem substanciosa feita com galinha caipira, farinha de milho torrada e temperos.

Quando meus três irmãos nasceram, minha avó passou dias fazendo sopas e outras coisas gostosas para minha mãe, porque ela tinha que ficar de repouso depois do parto. Vó Fazia com gosto, com amor pela filha e pelos netos. Eu nunca me esqueci do cheiro e do sabor daquela sopa fumegando na tigela de louça branca.
                
                  
               
Foto do Meu fogão à lenha

PS: Havia publicado sem receita, O amigo Fernando Cyrino sugeriu que colocasse a receita da sopa de galinha. Fui perguntar à minha mãe. Aqui está :

 
*1 galinha caipira nova e gorda  
*1 litro de farinha de milho torrada
*4 dentes de alho amassados e sal a gosto
*1 litro de água
*Cebolinha e salsa a gosto
No fogão à lenha dourava-se o alho  na  manteiga da própria galinha, dentro de uma panela de ferro bem grande. Depois colocava  os pedaços (Vó Geralda sempre cortava a galinha em 23 pedaços)  dentro da panela e deixava dourar. Acrescentava a água, sal  e  deixava cozinhar até ficar no ponto, isto é, bem  cozida. Depois era só  retirar os tições de lenha  do fogo e  adicionar a farinha de milho, sem  nunca parar de mexer para não empelotar. Então era só deixar  no fogo até começar a ferver. Por último salpicava o cheiro verde por cima.
A sopa era servida no quarto,  numa tigela de louça. Era feita para a mãe, mas todos na casa ficavam esperado para provar também.

 

*Texto escrito para o Exercício Criativo. Cujo tema é "Uma Receita" Leia os outros autores. Acesse:

http://encantodasletras.50webs.com/umareceita.htm
Maria Mineira
Enviado por Maria Mineira em 10/06/2013
Reeditado em 10/06/2013
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