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"Recordações de uma menina"-Capítulo 8

SÉRIE RECORDAÇÕES DE UMA MENINA

CAPÍTULO VIII
Década de 30
Bairro Ipanema
 

     
            Continuando meu relato infantil, sem seqüências, pois não conseguiria lembrar tudo, detalhadamente, visto já terem se passado anos e mais anos dos acontecimentos. Dias e noites se passavam  e se atropelavam em função da casa, que estava sendo construída, os sonhos se realizando e as expectativas de vida futura, nos braços de uma nova morada, feita à nossa vontade e escolha era um encantamento geral. Como éramos felizes naquela época, a alegria se estampava nas nossos rostos, sem podermos dissimular as emoções que nos envolviam. Até tarde da noite, cada um em seus quartos respectivos, podia-se ouvir o tagarelar alto de nós todos, confabulando, combinando, acertando detalhes daquilo que seria e já estava sendo, nossa fonte de alegria e felicidade. Não podíamos esconder tanta euforia, tanta riqueza de emoções, que banhavam e enriqueciam nossas vidas. Foram momentos, fases, minutos, segundos do mais pleno estado de felicidade, de fantasias que  bailavam em nossos sonhos, fazendo vida, alma e coração no embalo dessas venturas, dessas expectativas.
 
          Tudo cheirava à novidade, tudo seria renovado, móveis, cortinas, tapetes, tudo enfim que significasse decoração, seria adornado, enfeitado. Corria o ano de 1938 e eu, nos meus 8 anos, vivia tudo que era possível viver e me encantar como criança. Os dias passando, as emoções aumentando e a casa, saindo do papel e se concretizando, ante nossos olhos e corações. Eu, entre encantada e maravilhada, assistia tudo aquilo no desenho, nas escolhas, descortinando-se ante meus olhos de menina. A casa subia majestosa, imponente, já demonstrando o que seria quando pronta. Meu pai escolheu estilo colonial-mexicano, que maravilha!
 
          Chegou o dia da cumeeira, a família empolgada nos preparativos da festa tão esperada, os amigos, os convidados, flores. música, risos, uma completa agitação que recheava nossos corações de uma felicidade incontida. Lembro-me disso tudo, com os olhos rasos d'água de emoção, revivendo a cada minuto, os momentos indescritíveis de tanta felicidade. Fica tudo tão próximo a mim, que fico espantada pelas minúcias que meu eu, como menina, conseguiu reter, para depois poder escrever, descrever como se ontem tivesse sido.
 
          Chega até a doer as saudades, as lembranças de quem é tão amorosa como eu, pois cada minuto por mais curto que seja, aumenta em proporções enormes, mas a sensação depois é salutar e amena ao rememorá-la numa paz benfazeja.  Na festa a comilança foi enorme. Minha mãe fez, de três tábuas enormes, três mesas; duas para doces e salgados, e uma para os operários. A nossa só guloseimas finas e salgadinhos recheados deliciosíssimos. A outra, consistia em assados, sanduíches de salame, pernil e outros. Tudo regado a refrescos e guaraná, pois naquela época não existia refrigerantes, era isso só, mas para que mais? A única bebida fina era champanhe, vinho e ponche, muito bem servidos. A dos operários era um barril de chope imenso. Os homens, de um modo geral, amigos, convidados e operários atacararam de chope pra valer. Houve, como não podia deixar de ter, muitos discursos, poetas nas suas rimas, cantores de fundo de quintal nas violas atacaram, transformando uma simples cumeeira em sessões variadas de prazer. Tudo era motivo de festas, naquela época.  Eu adorei tudo, porque enquanto discursavam, recitavam, cantavam , eu escondida, roubava os sanduiches de salame, de pernil e e outras coisas que havia , tudo escondido, pois minha mãe dizia que não era para nós, era só para adultos, mas quem deixaria de participar da festa, para me controlar? Mandei brasa. Tudo que é escondido tem um valor imenso, todos sabem disso.
 
          Aquele dia preencheu minha vida de menina de tal maneira, que até hoje fico só pensando, curtindo, lamentando não poder retroagir àqueles encantados momentos. Faço-o, como disse, muito emocionada, muito feliz em ter havido contos de fada na minha infância.
 
           Hoje só ficarei na festa da cumeeira, de minha casa no Leblon. Esse bairro se tornou um dos mais conhecidos e elegantes, aqui da zona sul, margeado pela famosa Praia do Leblon e a Lagoa Rodrigo de Feitas, tão linda com as suas águas, banhando Leblon, Ipanema, Jardim Botânico e parte de Copacabana. Tenho ainda muitas coisas pra contar, se pudesse ficaria uma eternidade aqui rememorando sonhos divinos, acontecidos pelas décadas de 1930/40.
 
          Que memória a de uma menina, que só queria brincar de viver, de usar o tempo disponível, em dar tratos à bola, num festival dos "era uma vez", de suas estórias infantis, desenhadas exaustivamente, pelas mãos maravilhosas de um pai artista! Tudo era motivo de devaneios, em que eu misturava a realidade às fantasias de menina sonhadora, vinda de uma família delicada, feliz e rica em sentimentos.

Myriam Peres


 
 
Myriam Peres
Enviado por Myriam Peres em 18/08/2005
Código do texto: T43429
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Sobre a autora
Myriam Peres
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 86 anos
473 textos (54603 leituras)
5 e-livros (275 leituras)
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Myriam Peres