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GRAVATAS, LÁGRIMAS E PARAÍSOS


Numa primeira leitura pode parecer que o título não tem muito sentido, mas, para compreender o momento atual, tenho deixado que a livre associação costure alguns trechos dos depoimentos presenciados com confissões e especulações a fim de interpretar a realidade sem os véus incríveis da ficção.
Quem diria? Nem nos meus mais delirantes pensamentos, pensei em assistir à ruptura com a ética e à desconstrução da esperança de forma tão radical.
As fortes cores dos acessórios no peito do réu acusador chamam minha atenção. No breu da crise, o personagem, atuando na platéia, representa um justiceiro com instintos primitivos, vestido com uma gravata rosa vistosa com discretas bolinhas. Em outro ato, no centro do palco, o mesmo personagem ostenta uma gravata amarelo-ouro desenhada com escamas. Ora uma delicada flor amparada em suas pétalas e espinhos, ora um reluzente abacaxi espremido no corpo volumoso.
A escolha da cor das gravatas não pode ser apenas reflexo de um gosto extravagante. O que significa o acessório de tão complexo personagem? O que sinaliza para os marujos perdidos no oceano de denúncias (ou mar de lamas)? Qual é a advertência para os que tentam permanecer aportados no cais das políticas propagadas como vitoriosas?
Além dos recursos cênicos, dos clichês e do ousado vestuário, percebo que o roteiro é bordado com detalhes preciosos e que qualquer gesto tem de ser dimensionado junto à sombra, qualquer voz emitida junto ao eco, qualquer palavra interpretada em todos os possíveis significados... Política, canto, advocacia, cromoterapia, marketing...  Um personagem espelhado que reluz verdades em planos desfocados e atrai a admiração de muitos com seu carisma bufão.
Abandono as gravatas diante da minha enorme impotência em compreender os símbolos diante da autoridade de tantos fatos.
Manhã tensa. Não há outro assunto nas ruas. Especula-se sobre o futuro das instituições sem qualquer indício de uma esperança pré-existente. Desilusão! Medo! As pessoas estão assustadas com a dimensão da crise e temem que suas vidas pessoais sejam alcançadas por tantas surpresas. A balconista receia que suas míseras economias desapareçam na poupança, o bancário por seu emprego, o morador de rua perde a expectativa de um talvez, a mãe o sorriso para presentear o filho pequeno...
Todos aguardam um pronunciamento que justifique o absurdo. Novamente o discurso decepciona. Palavras como ética e transparência são trocadas por traição e indignação para fortalecer a peça de oratória elaborada com uma repetitiva exposição dos feitos do atual governo e com um orquestrado jogo de palavras que resume o sentimento e a perplexidade de todos brasileiros. Uma tentativa de mascarar o constrangimento de quem não tem palavras para justificar... Falta emoção à indignação, falta raiva pela suposta traição...
Hora do almoço. No restaurante lotado, uma mesa me chama a atenção. Uma mulher, um homem e dois adolescentes, aparentemente uma família. A mulher chora. As lágrimas rolam sobre a face quase sem expressão. O homem olha para o visor do celular e os dois adolescentes permanecem distraídos com as próprias inquietações. Um choro tão silencioso, quase envergonhado, todo abandonado... O que significa cada lágrima? Uma morte? Uma traição? Um luto? Uma bipolaridade? Rendo-me ao desconhecido. O pronunciamento da autoridade é novamente transmitido no telejornal. A família converge a atenção para o aparelho de televisão e parece encontrar na imagem um sentimento comum.
Paraísos... O encontro dos “céus” dos poderosos abre o abismo das lágrimas de muitos que ainda militavam em prol de uma sociedade mais justa. Derrotados pela realidade, inocentes são condenados ao inferno da descrença, da intolerância e da indiferença pelos que tentam sobreviver nos solos áridos do dia-a-dia. Abandonados pelos ideais, permanecem perdidos sem rumos que amparem a expectativa de ressurreição.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 18/08/2005
Código do texto: T43554
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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