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"Recordações de uma menina"-Capítulo 9

Recordações de uma menina

Décadas 30/40
Bairros Ipanema e Leblon
 
Capítulo 9
 
 
 
          E os dias se passando e a casa sendo terminada. Os móveis encomendados, a decoração febrilmente elaborada dentro do espírito de competição tácita e simulada de meus pais. Eis que chega o dia tão esperado, o dia que iria marcar, febrilmente, nossos anseios de felicidade.
          Casa terminada, preparativos para a tão almejada mudança. Todos, sem reclamar, ajudavam-se,  competiam para que tudo desse certo, sem problemas. Era um entra e sai de ajuda, de interesses para que fosse tudo realizado, de acordo com as reuniões dos preparativos, onde fomos informados de quais funções deveriam ser realizadas. Sem tirar sequer uma vírgula, tudo ia sendo organizado, minunciosamente, para a saida e, logo em seguida, para a chegada da nossa mudança. Foi tudo dentro da alegria estampada em nossos corações,  para colocarmos tudo em seus respectivos lugares na nossa nova casa tão linda e ansiosamente esperada.
          De Ipanema, aonde morávamos, para o Leblon era uma distância muito pequena, porque os bairros estão separados pelo Jardim de Allah, canal que liga a Lagoa Rodrigo de Freitas à Praia do Leblon. Esse canal era de uma beleza encantadora só vistas na época, atualmente não apresenta tantos encantos, como outrora. Coisas que não consigo explicar, nem muito mesmo entender.
          Em casa, o azáfama era intenso, pois queríamos vê-la brilhando para mostrarmos que ela estava sendo a razão daquilo tudo que tanto tínhamos almejado. Vida nova, bairro novo, casas espaçadas porque ainda sobravam muitos terrenos, num areal imenso que foi o início do maravilhoso bairro do Leblon. Atualmente, quando olho para ele é que me dou ciência das transformações que passou, sendo agora um bairro elegante, lindo, repleto de carinho que dá a todos os visitantes que vêm conhecê-lo.
          Nossa vida continuou como era em Ipanema, mesmos amigos, mesmos colégios, mesma maneira de viver que sempre insistíamos em ter. Os amigos vinham até a pé gozar do frescor e magia deste bairro encantador, cuja praia de águas tão verdes e transparentes, deixavam ver suas areias límpidas no fundo, serem banhadas de águas tépidas e mansas daquele mar tranqüilo. Pegávamos tatuís à beira mar. Eram aos milhares e nós, na nocência como crianças, pescávamos e reuníamos dentro de uma lata para levar pra casa e comermos cozidos com arroz. Maior petisco! Era uma beleza, uma emoção, um esplendor.
          Nós crianças, irmãos, amigos nos reuníamos para desfrutar dessa imensidão de bairro abençoado por Deus. Quantas saudades das brincadeiras, que em nosso entusiasmo não deixavam separar meninos das meninas, era tudo canção, era o verdadeiro paraíso infantil. Tínhamos mais liberdade, mais espaço para certas brincadeiras e vivíamos a soltar pipas (papagaios) o dia inteiro debaixo daquele céu azul anil de indescritível beleza. Felicidade plena, torpor de sentidas emoções infantís, que nos deixavam em estado de graça, eternamente. Momentos esses que serviriam para palco de meus devaneios nas recordações futuras. Sempre saliento essas imagens, porque não saberia viver sem elas.
          Mas, há sempre um mas, para se intrometer e alterar nossos sonhos. Corria o tempo e nos vimos ameaçados, surpreendidos pela Segunda Guerra Mundial (1939-1945), trágicos momentos vivenciei neste período de nefasta violação da paz mundial. Irmãos se matando, se dizimando pela loucura de um Ditador Adolf Hitler, que na sua fúria do poder, organizou esses espetáculos de mortes, perseguições, destruições numa loucura, que sua mente endiabrada e cruel, compôs e manchou com tanto sangue de nossos irmãos indefesos, deixando um lastro triste na separação e no desmoronamento de famílias .
          Meu pai, como jornalista que era, trazia revistas, fotos de periódicos do mundo inteiro, mostrando as atrocidades que os nazistas se vangloriavam em fazer. Era horrível, mas meu pai dentro da sua sapiência, queria que nós todos soubéssemos o que estava ocorrendo, mesmo que trágicas fossem as fotos que nos mostrava. Quantos navios nossos afundados na costas brasileiras, vidas ceifadas num trágico interesse que os japoneses tinham, sem propósito algum, pois o Brasil sempre foi um país exemplar, um país de paz, com seu povo maravilhoso e gentil. Muitos navios mercantes bombardeados, brasileiros mortos impiedosamente e eu lia tudo horrorizada. Isso, para uma criança, foi como uma punhalada nos meus contos de fada, da carochinha, das brincadeiras de roda, das modinhas que cantávamos com amor, das comidinhas que eu inventava cozinhar, para minha crença de menina, de criança de matizes puros de ilusões, como fui criada e que muito me marcaram.
          Black-out na cidade, em algumas janelas viam-se estrelas verde-amarelo, significando que alguém daquela casa tinha sido convocado para defender e ajudar nossos aliados. Quando a estrela era preta, todos sabíamos que alguém tinha sido eliminado. Nessa época, já tinham sido transcorridos alguns anos, quando apagaram o "Cristo Redentor" , Foi um golpe para os cariocas e todos aqueles que amavam nosso Rio de Janeiro, Nosso Brasil, por inteiro, em tempo de guerra, violentados e aviltados.
          A partir daqui, cronológicamente, não poderia citar mais nada. Meu pai cai doente e 22 dias após veio a falecer. Golpe brutal para a família e para os amigos, que tanto tinham se interligado na vida desse poeta, jornalista e escritor, que deixou, como herança, em meu sangue, aquela vontade de continuar, tentando levar adiante minhas palavras, nas lembranças da maravilhosa vida familiar, infantil de uma sonhadora que, apesar de tantos anos passados, ainda vive de ilusões e de saudades...
 
Maria Myriam Freire Peres
Rio de Janeiro, 08 de janeiro de 2005



 
Myriam Peres
Enviado por Myriam Peres em 19/08/2005
Reeditado em 19/08/2005
Código do texto: T43820
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Sobre a autora
Myriam Peres
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 86 anos
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Myriam Peres