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CAMELO, LEÃO E CRIANÇA (Homenagem a Nietzsche)



“Três transformações do espírito vos menciono: como o espírito se muda em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança.”
Friedrich Nietzsche

Um crime contra a esperança! Sinto a exclamação permear os atos como se fosse incapaz de abrir uma nova janela para o futuro. Sem possibilidade de esquecimento, acumulo vivências afetivas, profissionais, sociais e políticas, recortando e colando os traumas junto às realizações e tentando suportar a longa travessia no deserto.
Busco em vão os porquês, mas me surpreendo com as ambigüidades que encontro ou com as certezas que perco. Ora me acoberto com leituras para suportar as madrugadas frias, acordar sob o sol escaldante e permanecer viva na aridez do território, ora me escondo na própria releitura e reincido em narrativas que não surpreendem e que pesam excessivamente sobre a possibilidade de ser.
O espírito sobrecarregado se projeta num corpo rendido ao descampado...
Assim falou Zaratustra. A obra de Nietzsche me afasta do cotidiano. Transporto-me no tempo sem me importar muito com o espaço e vejo quando Zaratustra desce a montanha rumo às profundas inquietações de todos os seres. As transformações enunciadas em seu primeiro discurso me convencem da necessária metamorfose a que devemos nos submeter para vivermos de forma mais criativa, com mais desejo e força e sem tanta submissão aos “deveres” ou às verdades que não ousamos profanar com indagações.
O espírito amadurecido percorre o deserto com o peso do seu estar no mundo. A perfeita representação do camelo – ruminante e decadente. Carregado de vivências e sem anseios de mudanças, o espírito permanece submisso à sua representação na sociedade. Um ser cansado e solitário num caminho desértico. Resignação e obediência.
Tu deves...
A existência do camelo possibilita a transformação em leão. O impulso e a coragem, expressos no querer pessoal em confronto com o dever coletivo, são características fundamentais para o novo espírito. Ser livre para apropriar-se do próprio deserto. A ferocidade do leão rasga o existente e com ímpeto rompe com os vínculos, mas não tem o poder da criação e se limita aos conhecidos desertos cotidianos.
Eu quero...
O espírito seria abatido pelo próprio desejo caso não se transformasse em criança. Eis a terceira metamorfose. O leão, após se libertar e apropriar da vida, torna-se uma criança e, com a inocência e o esquecimento, assume o jogo da recriação. Completo o ciclo de metamorfoses, o espírito livre é “uma roda que gira sobre si, um movimento, uma santa afirmação”.
Eu sou...
Apóio o livro na cabeceira enquanto aterrizo na realidade repleta de obrigações e noticiários. Novas metáforas brilham como perspectivas renovadas de céu sobre o deserto. Ainda não iniciei as metamorfoses necessárias a fim de compreender o eterno retorno e a necessidade de recomeçar com criatividade. Busco-me ainda leão...

Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 23/08/2005
Código do texto: T44662
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
614 textos (789935 leituras)
2 áudios (1258 audições)
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Helena Sut

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