Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

ANALFABETISMO AMOROSO

"O verdadeiro analfabeto é aquele que sabe ler e não lê" (Mário Quintana)

Eu sei. Você imaginou que vem aí um rosário imenso de estatísticas e reflexões sobre a gravidade da situação do sistema educacional do país. Não que não seja sumamente importante, mas, não. Não é este o meu assunto agora. Só vou pegar carona no Quintana pra falar de um analfabetismo que não só causa danos gravíssimos e irreversíveis na vida do próprio analfabeto, como também na dos que com ele convivem. Chamaremos o tal sujeito pelo carinhoso nome de “analfabeto amoroso”.
É aquele sujeito que já ouviu falar do amor, ele próprio faz enormes discursos – por vezes, muitíssimo profundos – sobre o tema. O detalhe é que, na prática, ele não entende um x do assunto. Aliás, nem o A, o B, quanto mais o X e o Z da questão. Desconhece as coisas mais básicas do assunto. Só pra começar, desrespeita a regra mais básica: não ama a si próprio e é dono de uma miséria emocional sem nome. E, evidentemente, no seu envolvimento com alguém que tenha o azar de cruzar seu currículo amoroso, vai compartilhar esta miséria, o que resulta numa expressão de níveis exponenciais de sua ignorância emocional e numa fração mínima e de valores negativos de sua capacidade de amar. Tudo bem. Isto é Matemática, você dirá. Mas o cara é analfabeto das letras. o que dizer do resto?
Analfabetos amorosos desconhecem, do A ao Z, todas as emoções que fazem do amor esta obra de arte construída a quatro mãos. Afinidade, por exemplo, é algo que está no dicionário, mas não no dele. Pelo simples fato, de que afinidade, para esta criatura, significa que alguém tem que concordar com tudo o que ele disser. Boas maneiras, então, ele só conhece enquanto está na fase da sedução, que no caso dele, deveria chamar-se Fase da Propaganda Enganosa, que é quando ele se dedica a pavonear-se, enrolar a presa (sim, porque ele irá prendê-la literalmente no momento seguinte). Carinho, por favor, pula essa. Isto ele só conhece quando precisa de desculpas por uma cagada que fez ou quer conseguir algo do outro.
Se quisermos, iremos letra por letra e ele será reprovado em todas elas. Não vou aqui botar o infeliz na cruz e descer o prego. Ele não sabe por uma razão simples: ninguém ensinou e ele não sabia que tinha que aprender. É sempre o cara que, ou recebeu de mais ou de menos. E aí, não sabe a medida de nada.
Eu, você e todo mundo nascemos assim: analfabetos. Viver com os outros, ter a noção de que há mais gente aqui ou na Cisjordânia , é a primeira lição a ser aprendida pra sair deste analfabetismo. Saber que o mundo não foi feito pra você e que ninguém tem obrigação de satisfazer seus desejos ou expectativas. O outro é seu grande professor. A existência dele nos lembra o tempo todo palavras como respeito, companheirismo e amabilidade. Sem isso, não dá pra passar de ano no assunto.
A gente começa alfabetizando os próprios olhos. Aprende primeiro a olhar. Se você ama, tem que trocar seus olhos muitas vezes para entender o outro. E isso dá trabalho. Depois aprende a ver: ver o outro como ele é e não como queremos que seja. E vendo o outro, ver a si próprio. E aí ver que o outro também abre mão de seus olhos para nos ver e nos compreender. Difícil? Experimente passar a vida ignorando tudo isso. E pergunte para quem está do seu lado. Você vai ver que difícil não é aprender a sair do analfabetismo amoroso. Difícil é alguém agüentar você assim.
Tem razão o Quintana: analfabeto é o cara que mesmo sabendo ler, não lê. Nem linhas e menos ainda, entrelinhas.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 25/08/2005
Reeditado em 25/08/2005
Código do texto: T44992

Copyright © 2005. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154019 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 05/12/16 14:44)
Débora Denadai