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Vagas para rapazes

Foi nos anos setenta, estudava no Fundão e morava na Ilha do Governador.
Esperava por uma bolsa de estudos que nunca saia, e o dinheiro poupado ia se acabando. Um colega emprestou um apartamento mas o contrato estava acabando e eu só tinha o dinheiro para mais um mês de aluguel. Depois....
Bom, vc sabe como são essas coisas, vem a cobrança, o despejo e quando menos se espera vc está na rua sem rumo e sem teto.
Antes de acontecer essa tragédia, comecei a procurar quartos ou vagas para me escorar enquanto a maré não mudasse. Olhava o jornal, recortava os anúncios e ia bater calçada  olhando cada cortiço que você não imagina.
Lembro de um porão no Catete, numa daquelas casas antigas, verdadeira senzala, com divisões em madeirite, onde se espremiam umas 30 pessoas, cada um com sua intimidade preservada por um lençol velho ou uma cortina rasgada., outra vez, um apto no Flamengo, esse me impressionou, excelente quarto, mobiliado, com vista pra rua, de cara para o Aterro, eu vibrei, esse sim, vou ficar aqui... ai, você não imagina, começou a sair viado de tudo que era canto, pra me conhecer, era uma verdadeira  comunidade, juro que nunca fui tão paparicado na minha vida, sai correndo e lamentando o azar.
O tempo passava e nada de achar um quarto pra alugar, e o final do contrato do apto que eu estava, ficava cada vez mais perto.. Então um dia li um anuncio perfeito: Aluga-se vaga para rapazes de fino trato  no Dendê .Tratar no local. Para efeito de estudo, a Ilha era a opção primeira porque ficava perto do Fundão e não tinha problema nem despesas maiores com transporte, além de que a grande população local era de militares, por causa do Corpo de Fuzileiros, portanto um local seguro pra se viver, pelo menos naquele tempo..
Pela descrição, vinha a calhar e ainda de quebra, eu tinha dinheiro para uns 4 meses de aluguel. Cheio de esperança, lá fui eu recortei o anuncio, peguei o ônibus e fui conferir.
O diabo é que quando entrei no ônibus, o único lugar vago era aquele assento solitário que fica perto da porta. Até hoje tenho trauma com aquele assento, mas vamos tocando. Como eu falei, sentei-me no assento e fiquei vendo pela janela o trajeto até o Dendê. Devia demorar uns 20 minutos, transito tranqüilo, sábado à tarde, poucas paradas, e fomos indo...
Entra gente, desce gente, viagem normal até que uma senhora gordíssima deu sinal de parada. Em lugar de ficar sentada e esperar a freada para descer. Não, ela tinha que se levantar, vir andando pelo corredor do ônibus e ficar esperando que chegasse no ponto, justo encostada na cadeira e com um guarda chuva balançando, pendurado no pulso do braço que segurava no suporte do teto. Ai chegou na parada, o motorista como bom carioca que era, deu a famosa freada de arrumação, sabe como é, aquela que joga o pessoal pra frente deixando a traseira do ônibus vazia pra caber mais gente. Quem morou no Rio conhece.. A gorda balançou, foi pra frente voltou, cambaleou e conseguiu se equilibrar, mas nessa ginástica, o guarda chuva que também obedeceu a famosa lei física de oposição ao movimento, balançando alegremente, acertou uma tremenda porrada na minha testa e abriu um buraco por onde passou a jorrar o precioso líquido vermelho. A gorda nem olhou, desceu e o motorista falou: - essa foi feia, não foi irmão? Concordei com ele e tirei um lenço pra ver se estancava a sangria, em vão... o sangue insistia em escorrer e estava chegando no ponto onde eu ia saltar. Dei sinal e fiquei esperando a parada, segurando o lenço à altura da testa.
Desci por sorte em frente a um botequim, desse bem cariocas, de português, com retratos do Vasco na parede, aqueles celebres cartazes sobre vender fiado, propagandas de cervejas com aquelas mulheres maravilhosas  e azulejos azuis e amarelos como um tabuleiro.
- O Sr. me deixa ir ao banheiro? perguntei.
O portuga me olhou atravessado, mas deu a chave e eu me tranquei num quartinho de 1,50m x 1,00m desses que não da nem pra respirar, com o vaso cheio de merda, mas tinha uma pia e grande surpresa, um espelho rachado em cima dela.. Me olhei no bendito do espelho e lá estava a fonte da sangueira me olhando também... Um buraco meio feio mas já estava ficando coberto de sangue preto ou seja ia deixar de sangrar se eu não mexesse muito naquilo. O galo é que estava meio grandinho mas enfim, já estava ficando sob controle. Passei um pouco d´agua na testa, fechei a porta, dei a chave ao português e sai.
Notei que ele continuou me olhando com olhar estranho mas não atinei bem o motivo...  Dobrando a esquina, entrei na rua do tal quartinho e cheguei na casa do anuncio. Era uma casinha pequena dessas tipo BNH, mas tinha um fusca azul meio baleado no jardim e quando bati saiu um vira lata preto, daqueles que tem uma bolinha amarela em cima do olho e de rabo fino. Veio todo alegre e ficou me olhando e balançando o rabo até o dono aparecer e dar um pontapé nele. Era um negrão alto, forte feito um cavalo com uma camiseta do regimento de fuzileiros escrita: sgto Arnaldo.
-Boa tarde, é aqui que tem um quarto pra alugar? Perguntei.
O sargento Arnaldo me olhou de cima abaixo, olhou bem pro buraco na minha testa que por azar tinha voltado a sangrar e falou: -E´ aqui sim, mas já foi alugado...
Lá de dentro saiu uma voz feminina que devia ser da mulher dele, e gritou: - Não foi não Arnaldo.
 Sem nem me olhar, o negrão gritou  lá pra dentro: - foi sim.
Não, responderam, deixa o homem entrar pra ver o quarto. Ai o sargento perdeu a paciência e gritou: -foi sim, se eu estou dizendo que foi é porque foi, ora...
Ai veio lá de dentro uma senhora magrinha, miúda, com uma cara sofrida que eu acho que era a mulher dele, olhou demoradamente pra minha testa e falou: - Ah é, foi alugado sim...
Claro que não iam botar um marginal daqueles, com toda pinta que andou brigando na rua, bastava olhar a testa que se via logo o resultado, pra morar dentro de uma casa de família. Dei boa tarde, agradeci e sai... Na esquina olhei pra traz, e os dois estavam parados no portão me olhando em silencio.. E foi assim que eu perdi a pechincha de um quarto mobiliado...
ZéCarlos
Enviado por ZéCarlos em 26/08/2005
Reeditado em 01/09/2005
Código do texto: T45462
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Sobre o autor
ZéCarlos
Cabedelo - Paraíba - Brasil
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