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        Cuecas sem rendas!

                  Rosa Pena



E eu nunca participei diretamente de movimento feminista nenhum. Quer dizer, nunca levantei bandeiras de forma aberta.
Também não sou nenhuma Martha Medeiros e meus gritos não seriam ouvidos. Fui ganhando espaço na carona das que lutaram por isso e lutam até hoje.
Mas foi importantíssimo o movimento da emancipação da mulher, ora se foi. Para o mercado de trabalho, para a política, para... para tantas e tantas coisas, que isto aqui daria um livro e não apenas uma crônica. Resumindo então, para dar oxigênio ao mundo asfixiado pelo machismo.
Será que sou uma feminista fanática e não sabia?
Sou e sempre serei, antes de qualquer coisa, feminina. Gosto de ser mulher. Gosto de minha textura de pele, de meu cheiro de fêmea, dos meus pelinhos, dos meus pés pequenos, do meu tom de voz, dos meus seios em formato de pêras, de pintar minhas unhas, de passar batom, de usar vestidos de alcinhas, de ser mãe. Tenho orgulho!
Gosto muito que abram a porta para mim, gosto de sentir medo de trovoada, gosto de fechar os olhos em filme de terror, e mais: gosto de poder gostar, sem receio, de forma escancarada.
Essas fraquezas no nosso sexo são qualidades. A fragilidade é adjetivo feminino.
No entanto, nunca me achei do sexo frágil.
Aliás, sempre condenei os homens que não se permitem à fragilidade e parabenizo os que perderam seus ares de machão. Deve ser uma droga não poder subir em um banquinho quando aparece uma barata.
Deve ser um horror segurar as malas todas até o aeroporto. Uma merda não poder fazer luzes no cabelo, não usar lingerie rendada, não poder abraçar a barriga emprenhada. Porque nunca a Valisère teve a idéia de fazer cueca rendada?
Não estou disputando prazeres, sei que eles têm alguns que não temos. Estou apenas proseando e refletindo.
Mas uma coisa andou batendo em minha cabeça novamente. Não estamos nem na metade da emancipação. Estamos bem longe dela.
Durante quase 2000 anos, os homens falaram e fizeram o que tinham vontade em relação ao tesão de forma descarada. Chamam a gente de gostosa na lata, contam com orgulho suas “pegadas”, dizem abertamente suas fantasias em papos ou em poesias.
De repente, alguns e muitos começaram a reclamar de assédio. E estão se achando usados. Ofendem-se se chamados de gostosos. E se damos a entender que o romance vai ser breve, ficam nos imaginando mulheres da vida.
Eta papo brabo esse meu! Que conversa mais velha é essa mulher? Alguns estão pensando isto agora.
Mas é novinha essa história. Aconteceu em horário nobre na Globo na penúltima versão do BBB.
O educativo programa mostrou o tadinho do Thiago ofendidíssimo porque a brother Cida quis dar um “pegada” nele, visto que ali é mais do que normal.
— Não sou objeto para ser “pegado” na prateleira. Gosto de respeito!!!
Nós também, dotadão. Era esse o apelido do inocente rapaz que se expôs em um BBB.
Deu ibope o cara cheio de razão, e a babá que deu o beijo nele, que deu uma pegadinha de leve, pediu mil vezes perdão, totalmente constrangida, pelo desejo, pela ação consentida por ele, o tal dotadão.
Andou acontecendo comigo também. Percebi que fui mal-interpretada em algumas brincadeiras, em algumas declarações.
Aos homens é permitido falar o que der na telha, seja na vida real ou no mundinho virtual. Podem falar abertamente de sexo, desejos, fantasias e tudo mais.Neles, qualquer atitude é galante, é prova de virilidade.
Em nós, é insinuante, é fofoca, quase baixaria.
Valisère, não faça cuecas rendadas, rendas foram feitas para almas sensíveis. Ainda não há consumidores em massa.
Aguarde o ano 4000 d.C, mesmo assim tô pagando pra ver! 




2004
Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 28/08/2005
Reeditado em 03/10/2008
Código do texto: T45704
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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