Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

O HOMEM-MALA

Mala: assunto muito em moda nos últimos tempos. Malas de dinheiro para pagar mesadinhas generosas a certos senhores que, abnegados,trabalham tanto por tão pouco. Mas meu assunto não é política. Aliás, taí coisa que não me agrada já faz tempo. Meu assunto é simplesmente mala. Não AS, mas OS malas, criaturas que no fim até viram as malas. Aquelas que acabamos carregando por todo lado e, muitas vezes, por burrice, pela vida toda.
Você pode escolher:o mercado é extremamente diversificado quando o assunto são os malas. Há de vários tamanhos, com rodinhas ou sem, com alças ou sem, estilo mochila, saco, malas bem acabadas e outras que nem agüentam o primeiro tranco. Mala com griffe. Sim, senhor. Algumas ostentam griffes e mais griffes e até selinhos dos lugares por onde andaram. Por assim dizer, uma espécie de currículo.
Bom adiantar que este não é e nem pretende ser um texto feminista ou uma declaração aberta de guerra contra os nossos amigos do sexo masculino. Devo dizer logo que gosto muito dos rapazes, com quem costumo me entender perfeitamente. Acho que os homens são uns sortudos: vivem num universo todo especial e que me agrada muito andar pesquisando. Estou aqui falando apenas de um determinado tipo de homem, que infelizmente anda proliferando feito barata por aí: OS malas.
Mais fácil começar nossa conversa por aquele tipo de mala que dá mais trabalho e que teve uma única glória na vida: dar origem à própria expressão. O mala sem alça, que depois ficou conhecido, injustamente, apenas como O mala. Injustamente porque o que o identifica melhor é justamente a falta das alças. É aquele sujeito que cruza um dia o seu caminho e que você até hoje, com dez mil sessões de análise, não conseguiu descobrir que raios enxergou naquela criatura. Como é mesmo aquele ditado? “Namorado e vestido antigo têm uma coisa em comum. Um dia você olha e pensa: como eu pude usar isso???” Mas usou, amiguinha. E o que é pior: estes são difíceis de saírem do seu armário. Vão ficando, ficando e só saem no dia em que você tem uma crise de loucura e atira algo na cabeça dele ou ameaça cortar-lhe a única cabeça que funciona. E mesmo assim, mesmo de longe, o mala sem alça vai achar um jeito de ficar te alfinetando.
Um outro mala, igualmente sem alça, mas de mais difícil identificação é o que eu chamo de Victor Hugo (você pode escolher outra griffe très chic, isso aqui não é propaganda). O sujeito é uma beleza: material de primeira, muito bem encapado, digo, vestido, só usa coisa caríssima, é todo cavalheiro e tudo nele é pura griffe. Inclusive a chatice. Tente andar perto dele com aquela camisetinha velha que você aaaaammmma
de paixão, cheia de furinhos, mas que você não joga fora nem que sua mãe ameace suicídio. Tente, querida. Vai em frente. Os olhinhos do moço vão se revirar até Saturno, ele vai avermelhar feito ferro em brasa, e o ambiente vai virar névoa com toda a fumaça que vai sair da cabecinha dele. Moça, com este,nem pensar em compartilhar intimidade. Você vai ter que acordar de salto alto, maquiada, com a lingerie mais cara do mercado.Detalhe: pague você, porque nosso malinha da Victor Hugo só gasta com ele. Este, bom lembrar, primo-irmão do Narciso. Aquele da mitologia, você sabe.
Escapou do Mr. Griffe? Ótimo, porque como todo mala, dificilmente você se livra deles. A terapia ajuda, mas leva tempo. Até que um dia surge o famoso mochila. Você vai amar a princípio. Famoso topa tudo, encaro qualquer parada, me leve pra onde quiser. Exatamente. VOCÊ o leva. Porque o moço, minha santa, não te leva pra lado nenhum e como bom mochileiro, vai acampar na tua casa. Se você tiver vocação pra dona de pousada, taí uma excelente opção. Ah, sim. Não esqueça de que você vai ter que arranjar mais uma empregada. Só pra catar tudo que ele vai, no seu jeito mochileiro zen, espalhando pela sua casinha tão querida. Mas isso é apenas um detalhe né, amor?
Você, moça muderrrrrrna, escoladíssima, com milhares de quilômetros e inúmeros livros do tipo “Eu estou ok, você está ok” segue o rumo, pensando que já viu tudo que podia em termos de bagagens, certo? Nãnãninã não. Num belo dia ensolarado ou numa noite de lua cheia, pinta aquele sujeito que parece caído dos céus. Gracinha de criatura. Romance engatado, belezinha. Um dia vem ele com a escova de dentes, as cuequinhas de estimação e as rodinhas. Que rodinhas? Ora, as pobres criaturinhas que ele ajudou a pôr no mundo (sem a SUA participação, é claro) mas que, você, amor da vida dele, certamente vai ajudar a criar.
E então, fez a sua escolha? Certos estão os monges budistas: na vida a gente deve ter só o que pode carregar. E sem ajuda de malas.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 29/08/2005
Código do texto: T46094

Copyright © 2005. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154025 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 12:42)
Débora Denadai

Site do Escritor