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LA HUESERA

Há muita coisa na vida pra aprender. Clichê, chavão, lugar-comum, coisa que todo mundo sabe. Ou não. Até porque conheço um bocado de gente que acha que já sabe tudo e um tanto mais que nós, meros mortais, ainda estaremos longe de aprender. Eu, por uma ou várias razões, venho me dedicando a tentar aproveitar as lições em tudo que me aparece. Não foram poucas e, estou certa, ainda faltam milhares.
Em nome do aprendizado, venho exercitando minha paciência. Com algum sucesso às vezes e outras, bem...Deus sabe e as coisas que quebro também. A verdade é, que por mais que deseje, descobri que não tenho mesmo o menor jeito pra moça fina. Até tento ser elegante às vezes e poupar os ouvidos e olhos alheios de todos os impropérios que me saltam à mente e à língua. Nem sempre é possível. Não sou de ferro e nem tenho nervos de aço. E não duvide: se algo sobra é quem nos teste paciência. E é óbvio, que quando se passa tempo demais sendo polida, quando seu lado bruto salta, a humanidade faz aquela cara de “OH!!!! O que houve com ela?”. Se houve ou não, não interessa.
A busca por conhecer a mim mesma, a busca pela Loba, pela Mulher Selvagem (sem interpretações dúbias, por favor) que mora dentro de todas nós segue em frente. Aquela que canta sobre os ossos. Se alguém fuçar aí pelos primórdios da humanidade e os contos fantásticos, que de certa maneira, falam muito da psique feminina, vai chegar a La Huesera. Aquela que junta os ossos todos de algum defunto, e bajo la luna, desanda a cantar a canção que, aos poucos, restitui ao cadáver os pelos, a pele e finalmente, a vida. Estou fazendo isso há muito tempo. Venho juntando meus ossos e, finalmente, parece que está próxima a hora de cantar sobre eles.
Entre os ossos do meu antigo corpo, espalhados aí pelas estradas que percorri, ficaram aqueles que gostaria de dar em algumas cabeças ocas que encontro eventualmente. E sinto muito, mas esta não é uma tarefa que se pode fazer com elegância. Junte-se a isso, aqui e ali, alguma leitura mais espiritualista, que diz que para ser inteiro, é preciso aceitar sua luz e sua sombra. Muito bem: aí está minha sombra. Sou muito sem compostura quando necessário. Não agrada. Sei bem. Uma garota fina não diz certas coisas, não perde as estribeiras, não sai por aí chutando o pau da barraca ou o pau de quem quer que seja. Pena. Não sou uma garota, sou uma mulher que está cantando sobre seus ossos. E, não. Não tenho compostura quando não vejo outro jeito.
La Huesera já recuperou meus pelos, minha pele está quase firme e sim, estou pensando em sair por aí uivando pelo deserto. Se conseguir uma matilha, será perfeito. Se não, sempre haverá desertos e florestas pela frente. Mas continuarei cantando sobre os ossos. Com ou sem compostura
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 07/09/2005
Reeditado em 07/09/2005
Código do texto: T48471

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154043 leituras)
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Débora Denadai

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