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O ATO DE ESCREVER


                   Existem algumas máximas interessantes defendidas por alguns grandes escritores sobre o ato de escrever. Pablo Neruda, por exemplo, num de seus momentos de enlevo, enfatizou: “escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca idéias”.

                   O ato de escrever tem duas vertentes significativas: primeira, escrever pelo simples ato de cunho profissional, para cumprir uma tarefa de informar, noticiar fatos do dia a dia, por exemplo; segunda, escrever movido por prazer, quase uma necessidade de se expurgar o que balbucia no íntimo. Eis aí o prazer maior. Sensação que nos faz crer que não estamos no mundo somente como meros viventes, mas expectadores sintonizados no sentir, no perceber, no intuir, no observar o tudo, o todo. Algo metafísico, beirando às raias do incognoscível, até. Iria eu mais além: o ato de escrever por prazer é vício, causa dependência.

                   Alguns postulantes à arte de escrever são detentores de saber notório quanto as domínio das regras gramaticais e norma lingüística, mas me parece que só este detalhe não é condição precípua para quem almeja destaque no cenário literário. Não basta. Carece de um detalhe que muitos afirmam ser um dom: a essência.  Cecília Meireles, no seu poema Motivo já enfatizava: “eu canto porque o momento existe”. Tem que existir! Pode-se até cantar sem o momento, mas onde estarão os “acordes melódicos”?  O momento é aquele de inspiração, de insight que nos chega sem aviso prévio: as vezes nos surge como alma penada a nos rondar nas madrugadas insones; noutras, nos chega tranqüila; noutras tantas pode vir feito a erupção de um vulcão. São esses pormenores que diferenciam o escritor, o poeta, os criadores literários dos demais mortais.

                   Ante ao extraordinário avanço tecnológico registrado em nossos dias, pode-se perguntar: qual seria de fato o papel do escritor, do poeta no mundo moderno? Alguns responderão à queima roupa: desprezível. Aliás, escritor nem mesmo é reconhecido como um profissional! Quero crer que o gostar  de escrever está além de quaisquer trivialidades. È prazer, é quase necessidade! Lógico, são gratificantes os aplausos, as loas, mas são decorrências de um trabalho feito não só com o tempero do esmero e dedicação, mas principalmente do doar-se ao momento. Prazer de dar forma aos sentimentos. Mesmo que as ovações não nos cheguem, haverá condecoração mais gratificante para o escritor quando se sente inserido no que lhe saiu da alma, fenômeno que parece transcender aos limites físicos?

                   Talvez os escritores até sejam desprezíveis, olhando-se sob o prisma da realidade tal qual ela se nos apresenta, mas o que dizer dos versos cantados em êxtase que mexem com o nosso emocional? O que se dizer quando nós, simples leitores, de repente nos encontramos envolvidos nas tramas dos romances, dos contos, das historietas, das crônicas? O que se dizer quando nos sentimos espelhados nos versos que retratam nossa história, nosso estado de espírito, nossas saudades, nossos amores, nossas paixões, nossos sonhos?
                   Haverá gratidão maior para o escritor do que a sensação de ir pouco a pouco, feito artífice das palavras, moldando-as pacientemente, dando-lhes vida para que incorporem sentimentos que nos assolam? Haverá gratidão maior quando tudo finalmente concluído sentir-se genuflexamente realizado com a sensação suprema que finalmente exorcizou o que a emoção pedia, mesmo que não se enquadre perfeito nas normas lingüísticas?  Aliás, a poesia, principalmente, poderia estar liberta de alguns grilhões técnicos de cunho normativos. Emoções, sensações são sentimentos que extrapolam limites pré-fixados. Por vezes todo esse aparato sufoca, burla, tolhe a essência.

                   Dizem que os escritores são exímios viajantes perdidos nos céus de um mundo imaginário. Podem ser românticos, revolucionários, entediados, farsantes, dispensáveis do contexto social.

                   Seja lá como se nos apresentem ou nos pareçam, pouco importa-lhes, sabem que são detalhes insignificantes diante do espaço imaginário infindo onde reinam, imperam e são sempre Ashtar Sheazan nesse mundo paralelo.

                   Às vezes são protagonistas de sua própria história. Cantam suas dores, suas saudades, suas amarguras; choram seus amores. Mas nunca padecem de solidão. Quando bem desejam, no auge da imaginação fértil, até se vêem nos braços da amada. Quando mais ousados, arvoram-se nos espaços mais longínquos do seu mundo Aí até se vêem em suas Andrômedas, em seus Alfas Centauros, promovendo mil travessuras, a viverem o amor maior de todos os mortais que somente os apaixonados sabem senti-lo.

                   Existem aqueles satíricos, rebeldes. Seus versos são armas ferinas. Às vezes nos dizem coisas que parecem dosadas com o mel, mas são astutos, nas entrelinhas é que eles escondem o seu fel.

                   Há os onipotentes. Tramam histórias, romances. Concedem vida aos seus personagens, armam desfechos sensacionais, decidem destinos como bem lhes convier. São quase semideuses. Muitos deles com espetaculares artimanhas entram em nós, mexem e remexem com o nosso emocional. Fazem-nos chorar, rir, soluçar, ansiar com suas histórias espetaculares.

                   Mas nem tudo pode ser perfeito. Não há jeito. Os escritores não fogem à regra. Às vezes quando contemplam sua obra concluída, se vêem perdidos ou se encontram estranhos. Sentem que disseram tudo, menos o que de fato sentiam. Sabem que para ser grande não precisa só sofrer ou agonizar de dor, precisa também, às vezes, ser um exímio fingidor.


Eduardo Conde
Enviado por Eduardo Conde em 13/05/2007
Código do texto: T485529
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Sobre o autor
Eduardo Conde
Teresina - Piauí - Brasil
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