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Fiz meu pecado em cinzas

 Fiz meu pecado em cinzas...
                                                                    Lizete Abahão
 
        Aqueles armários de livros, imensos, envidraçados e chaveados, eram uma tentação!
Livros e mais livros. Vermelhos, pretos, letras douradas, finos, grossos, coloridos...que encantamento!
Mas...chaveados os armários!
        Eu ficava horas olhando os dorsos, títulos intrigantes, tentadores, assustadores até. Mas os armários chaveados.
        Um dia, vi minha mãe, após espanar os móveis, guardar uma chave em uma gaveta. Ela viu que eu a cuidava e me disse que aqueles livros não eram para crianças da minha idade. E levou a chave para outro lugar. E eu não pude ver onde ela a guardara.
        Quando ela saiu, aproximei-me dos armários e vi que a fechadura era pequena, como as dos guarda-roupas do quarto dos meus pais. Cuidei a ver se não vinha alguém e, tudo livre, apanhei uma das chaves no quarto deles e corri para a biblioteca. Tremia! Experimentei a chave... Servia!...
        Abri o armário e, na ponta dos pés, alcancei um livro pequeno e não muito grosso, capa colorida. Ajeitei os outros para não darem pela falta do que eu tirara, escondi-o debaixo da blusa e fui devagar, normalmente (se é que podia ser normalmente com o coração batendo quase na boca) colocar a chave de volta. No mesmo passo, pra não chamar a atenção, dirigi-me para o vão embaixo da escada interna que levava ao segundo andar do casarão. E li.
        Era um livro de uma coleção antiga, \"A novela\" ,o título da história, \"A laguna azul\". Bebia as letras sofregamente, pra ler ligeiro e o máximo possível. Até hoje não sei como consegui ler naquele escuro. Mistério. Mas eu li. Também nem sei quanto tempo ali fiquei sentada no chão, encolhida para não ser notada.
    De repente ouvi passos. Era minha mãe e me chamava. Hora do jantar. E agora? Como sair dali sem que ela notasse o livro? Escondi-o atrás de uma caixa e fingi que dormia...
        Ela se aproximou, chamou-me em voz baixa, tocou-me e perguntou se eu estava doente...e que lugar era aquele que eu escolhera pra dormir? Menti dizendo que fora ver uns brinquedos nas caixas,que  me sentara e domira. Pois vamos jantar de uma vez. Vai te lavar, janta e vai dormir na cama, disse-me ela.E foi o que fiz.
        Mas... e o livro? Se o deixasse ali iriam achá-lo! Fui jantar e logo após, enquanto minha mãe arrumava a sala de jantar e as louças, meu pai colocava o carro na garagem e minha irmã fora com ele, enveredei pro quarto deles, peguei  a chave, busquei o livro, guardei-o, coloquei a chave de volta e ia na disparada pro meu quarto mas dou de encontro com minha mãe! Que é isso menina? Falou. Andava dormindo pelos cantos e agora a essa hora correndo pela casa? Que susto! Nada, não, mãe, fui escovar os dentes e já vou indo dormir. E precisa correr pra isso? Aliviei o passo e o coração, fui trocar de roupa e deitar. E dormi sonhando com uma laguna azul.
        Depois desse dia, tornou-se um hábito eu fazer isso. Não havia canto do casarão e do pátio imenso que eu já não houvesse me escondido para ler. E foram tantas as vezes que me pegaram fingindo dormir que me levaram ao médico, pois eu devia estar doente pra cair no sono em qualquer lugar!
        Está com anemia, disse o médico. E lá tive eu de tomar complexos vitamínicos, superalimentação, passeios ao sol, etc...Que suplício! E os livros todos lá, e eu sem nem tempo de chegar perto deles. Sim, porque eu tinha de ir ao colégio, fazer os temas e ajudar em algumas tarefas da casa.
        Acabei engordando, isso, sim, por causa da tal super-hiper-alimentação!
        Com o tempo, fui me organizando, cuidando os horários de minha mãe, do meu pai, e até anotava tudo. Em certas horas do dia, minha mãe saía às compras, minha irmã ia à aula de piano, meu pai no trabalho e eu ficava sozinha! Quer dizer: ia ficar sozinha, porque para não ter de sair com minha mãe eu lhe dissera que precisava estudar, que estava meio mal em certas matérias. E ela saía, com mil recomendações.
       Livre, finalmente! Mal o último a sair fechava a porta lá ia eu na disparada, fazer todo o ritual da chave. Já lera alguns livros, pequenos, mas um grande me chamava a atenção, principalmente pelo título: \"A ronda dos anjos sensuais\". E aquele devia ser \"pecado\"  ler. Mas não resisti. Peguei-o de primeira! Minha escrivaninha era de levantar o tampo, qualquer coisa suspeita enfiava o livro lá dentro. E comecei a lê-lo. Foi uma delícia e um martírio. Picante, sensualíssimo, como dizia o título, ficava excitada, não sabia se o devolvia ou lia. Sexo era pecado! Mas não resistia, pegava-o de novo!
    Cada vez que ouvia as conversas, então, entre minha família, muito religiosa, meu coração mais se apertava de remorso. Que pecado horrivel eu estava cometendo! Não adiantava, pegava o livro de novo! Já o lera algumas vezes e o relia. Aquilo não podia continuar! Que fraca eu era!
        Uma tarde, com a maior calma, apanhei-o novamente, passei na cozinha e peguei os fósforos. Fui ao fundo do pátio, entre as árvores, arranquei páginas e fui queimando-o, até ver em cinzas o meu pecado.
        Mas não deixei de continuar \"roubando\" os livros do meu pai para os ler...e jamais deram pela falta de um que fosse.

 
Lizete Abrahão
Enviado por Lizete Abrahão em 07/09/2005
Código do texto: T48563

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Sobre a autora
Lizete Abrahão
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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Lizete Abrahão