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Ame e dê vexame


Rosa Pena

Para Carol minha filha 


Primeira- parte:

-Não consigo viver sem ele. Vou morrer.
- Sem ele ou sem a companhia dele?
- Dá no mesmo, pô! Que idiotice.
- Será? Ou não seria mais razoável dizer:
- Não encaro a solidão?
-Ele é o meu amor. Absoluto; total. Estou sofrendo adoidado.

Tentar explicar à uma menina de vinte anos que sequer temos certeza da existência desse amor avassalador é complicado demais. Afinal é cortar o barato de Romeu e Julieta, é tirar o romantismo precocemente, é tentar avançar na idade dela, para que descubra logo que o grande medo, o medão mesmo, é a solidão. Não ter alguém para ir àquela festa, não ganhar presente no dia dos namorados, não ouvir o maravilhoso som do – eu te amo (ao telefone) não ter com quem sonhar, não ter acompanhante na TPM, amargar a ironia das “amigas” – Desacompanhada!?... Coitada, é mal- amada .

Afinal o mito do amor eterno, mesmo que com muita dor, aliás tem que doer (está institucionalizado que para ser amor, tem que doer paca), contínua em voga. Em plena era dos ficantes, na geração do “tudo é permitido” dos filhos feitos em produção independente- que eu me basto- ainda é mico afirmar:-“ Eu nunca sofri por amor “.

Tem que chorar sim, abundantemente, para se tornar adulta. Alguém disse que o sofrimento nos faz melhor, não só o sofrimento amoroso, as perdas em geral.

Então porque tantos jovens que foram pra guerra, perderam tudo, padeceram pra cacete, não ficaram seres humanos maravilhosos? Acho que estou delirando. Muito sol na praia, não quero que ela sofra jamais!

Realmente não sei como dizer para este projeto de mulher madura, que este tal amor total, engloba convivência com companheirismo, respeito, amizade, confiança, cumplicidade, admiração acima de tudo, não apenas arrebatamento pelos belos bíceps, além do que ela já sente, é óbvio, o tesão. O sofrimento acontece, não há como evitá-lo, faz parte da construção de nossas vidas, mas não temos que procurá-lo para constar em nossa biografia, para enriquecer o currículo de nossa feminilidade, com escolhas tão malfeitas como esta dela agora. O Vinícius é um imbecil completo, um safado e burro, muito burro porque a deixou. Vai se arrepender amargamente (misto de constatação e praga). 


Segunda-parte:

Caraca!!!! Que discurso ridículo é esse Rosa? Ainda bem que não virou oral.
Desde quando o amor é racional a ponto de fazermos escolhas corretas?

- Chora minha garota, inunda o Nilo, fertiliza desertos com suas lágrimas, pois qualquer final de amor é triste. Sairá fortalecida sim! Pra desvendar que o tal eterno é eterno no momento e quem sabe um dia consegue o tal amor total.

Não existe panela sem tampa, apesar da eterna mania de trocarmos as tampas e essas mal encaixadas não permitem o vapor pleno. 

Final:

Nos abraçamos finalmente como duas mulheres. A infância dela havia acabado agora, neste instante no meu cérebro maternal. Agora éramos duas grandes amigas!

Um mergulho no mar, uma olhada no salva- vidas, um sorriso cúmplice:

- Que gato! 




foto: carol pena 

2005 




No amor, jamais nos deixamos completar. Somos, um para o outro, deliciosamente desnecessários"
Roberto Freire (livro: Ame e dê vexame)



Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 21/02/2005
Reeditado em 02/10/2008
Código do texto: T4875
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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