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LOBAS: UMA DENTRO DE CADA UMA DE NÓS

           Observando bem, florestas, lobos e mulheres conscientes de si, conectadas a sua natureza primordial, têm muita coisa em comum. Em primeiro lugar a reputação: perigosos, vorazes e traiçoeiros. Acha que não? Veja um dos livros mais conhecidos da humanidade, a Bíblia. As menções às mulheres, no mais das vezes, as colocam como a perdição dos homens, a que atraiçoa, mente e não é digna de confiança. Se for pouco, apele para os ditos populares. Na sua maioria, sempre colocam a mulher como uma traidora em potencial, alguém em quem é perigoso confiar.
         A outra semelhança está no fato de que todas estas criaturas (estou incluindo mulheres entre elas) vêm sendo sistematicamente atacadas e dizimadas. Explico-me: os animais, por perigosos e pelo pouco valor que se dá a sua vida. As mulheres, dizimadas no que têm de mais valioso para elas e perigoso para aqueles que não as compreendem: as florestas obscuras de sua intuição, de sua ligação consigo próprias, o que as torna por demais seguras e uma bomba nuclear pronta a fazer estragos na vida de quem não consegue lidar com isso.
        O lado selvagem, aquele que nos conecta com o natural, que nos dá os rumos quando tudo parece não ter sentido, que explica o inexplicável, vem sendo persistentemente aniquilado pela modernidade. Não, não sou uma maluca que quer voltar no tempo. Adoro a modernidade, os computadores, as coisas que facilitam a vida. Mas o ritmo que permitimos que nos impusessem nos afastou dos nossos ciclos naturais, nos distanciou da nossa natureza primeira, tirou de nós o que somos de fato. 
         De maneiras artificiais, nossos ritmos vêm sendo substituídos por outros, mais adequados e agradáveis aos demais. Nossa menstruação, momento em que nossos bigodes lupinos ficam mais alertas do que nunca, passaram a ser considerados um legítimo incômodo (lembra de quando sua vó ficava “incomodada”? Pois é...). Parir nossos filhos de forma natural, querer seguir os rumos que a natureza indica virou um sinônimo claro e evidente de ignorância. Lembro perfeitamente o assombro do meu obstetra quando tive meu primeiro filho: ele jurava que o menino só nascia no dia oito, porque os exames e todos seus apetrechos modernos indicavam assim e eu disse que ficasse a postos para o dia cinco, porque a Lua me dizia isso. Ele nasceu no dia cinco.
As lobas sabem do perigo. Podem não explicar o porquê, mas sempre acertam quando farejam sinal de alerta. Protegem seus filhotes, ainda que seja necessário mordê-los para demovê-los do que os coloca em risco. Protegem suas tocas com garras afiadas contra quem se atreva a passar pela entrada sem permissão. Protegem seus parceiros, ainda que tenham milhares de razões para querer furar-lhes a jugular. Assim, a Mulher Selvagem, conectada com a natureza e com a SUA natureza primeva.
Não sou uma doida que pretende viver numa caverna escura isolada do mundo. Tenho minha própria caverna dentro de mim. Não pretendo criar pelos e bigodes lupinos: a loba vive num lugar onde o acesso é restrito. Mas acho que precisamos de menos academias de ginástica e mais corridas pelo meio do campo, ouvindo o capim que farfalhando, fala conosco. Precisamos menos maquiagem e mais banhos no rio, ouvindo seus segredos cantados entre os seixos. Precisamos menos botox, menos padrões de beleza impostos por outros e mais tempo à beira de uma fogueira, ouvindo a velha sábia dentro de nós contar sobre nossa história no crepitar do fogo. Principalmente, precisamos lembrar a Loba, que, ainda que esteja adormecida, está lá, à espera de nós.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 08/09/2005
Reeditado em 08/09/2005
Código do texto: T48807

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai

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