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O tema da contradição

“ Que haja coisas iguais,
que haja casos iguais:
é uma ficção no juízo como, depois ,
no raciocínio.”
Nietzsche

Um dia apenas, nada mais. Alunos, aulas, conteúdo novo, alunos faltosos, alguns desinteressados, outros indiferentes.

Pelos corredores, rumores de que os alunos precisam ser melhores orientados, que escrevem mal, que seus cálculos não ultrapassam a lógica, que seus conhecimentos são limitados, corpos e mentes de aroma diferentes.

Dentro de cada um, no silêncio de uma sala de aula repleta de seres em desenvolvimento, o caos. O não saber o que comerá logo mais à noite. A preocupação com a chuva prevista pela meteorologia. O pai que está no hospital. A mãe que saiu a noitinha e chegou pela manhã, cheirando a álcool e perfume diversos. A pergunta que não quer calar, embora sufocada no olhar distantes: de que me serve tudo isso?

Álgebra, Geometria, Poesia, Artes, Geografia, Literatura, Português, Historia, Biologia, Física... “ Me deixa ir beber água. Ao banheiro. Me libera para ir até o pátio, sentar-me a beira das árvores. Libera a quadra, lá, o cheiro do meu corpo, ao se misturar com a da natureza, não incomoda tanto. Meus pés, no tênis velho, na sandália de dedos, sentem-se livres como meu interior. Em cada cesta, cada gol, cada pulo, cada grito, extravaso o choro tantas vezes contido. Lá fora, enquanto converso com meus amigos, paquero a colega, sinto-me ave no seu ninho, sou capaz de sobrevoar o presente , ultrapassando o silêncio dos momentos inexplicáveis.

Arroz, macarrão, galinha, batata frita, suco... Sopa? Mingau? Alimento que sempre vem em hora boa. Lá em casa, tem uma semana que se come feijão cozido na água e sal. A mãe ainda não recebeu. O pai gastou a grana do biscate no bar da Zeferina. A minha avó, não recebeu a pensão, ainda. Minha tia, cria a mim e a mais cinco primos. Coloca aí, no prato, um pouco do manjar dos deuses que a mim foi destinado. Sou filho do Rei, mas da sobra da mesa dos gentios, até ao lugar destinado aos súditos, a comida vai se desfazendo, fluindo, até virar esta farinha com ovo e frango desfiado.

Sócrates, Freud, Platão... Quero mesmo é soltar pipa, rodar meu pião, porque o caderno acabou, a caneta eu perdi, o lápis não sei onde está, a borracha... Borracha pra quê, fêssora, minha vida é um livro aberto.


veronica eugenio
Enviado por veronica eugenio em 11/09/2005
Código do texto: T49475

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Sobre a autora
veronica eugenio
Cachoeiro de Itapemirim - Espírito Santo - Brasil, 55 anos
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veronica eugenio