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                     APENAS MÃE

                                            Rosa Pena  



- Não sou sua coleguinha, sou sua mãe, gritei alto e em bom-tom.

Essa é a grande dificuldade que tenho encontrado na minha relação com minha filha de vinte e dois anos. Ela cisma de esquecer nossas décadas de diferença, ela ignora o tanto que já vivi, ela insiste que só o meu corpo envelheceu, e que sou antenadíssima com a juventude, ela exige isenção da emoção que nos liga em meus conselhos. Eu a amo como mãe, eu sou sua melhor amiga, mas não coleguinha de seus devaneios do além.

Já tive o tempo dos meus, foram tantos e tantos, já quebrei muito a cara, já quebrei até a coroa, e minha mãe não era muito moderna. Minha mãe? Era mãe com avental sujo de ovo, da linha de mães Made in Lar.

O noivo da minha menina largou-a. Ela chorou todas. No meu ombro, no ombro das coleguinhas, do vizinho, da empregada, do seu Manuel da papelaria, e todo aquele que cruzasse em sua vida naquele momento. Quando a gente está na fossa o mundo inteiro tem que ouvir. Dei meu apoio incondicional, mas proferi meu pensamento que contrariou as idéias das colegas de geração.
Diagnóstico de mãe:

- Ele é um merda que não merece um tesouro como você. 

Meu pronunciamento de amiga vivida:

- Melhor agora do que depois, vocês possuem excessos de diferenças.
Contrariei a análise da turminha de vinte aninhos, que se solidarizou geral com ela na perda lastimável do saradão bombado, rei do hip- hop, valentão com pitbull, que fala menos no feminino, "menAs" é foda, fala sério!

Passei a senti-la afastada de mim, olhando-me como se eu fosse um Tiranossauro Rex, uma sogra víbora que adora falar horrores do genro. Onde errei, fico a me perguntar. Investi numa faculdade, em cursos de diversas línguas, em aulas de dança, em mil livros, muitas viagens para fazê-la uma mulher independente, quase pronta para não precisar se submeter à profissão de esposa, refém emocional e financeira de algum alguém. Queria que ela tivesse a opção de ser amada e de amar, sem vínculos empregatícios, que geralmente terminam na justiça, brigando por tampa de privada. Queria deixá-la a vontade para ser solteira, juntada, amasiada ou casada amada. Não coloquei expectativa de fama e fortuna para ela, mas no mínimo um amor que soubesse apreciar Tom Jobim e uma cabana com ar-condicionado.
A vida mudou, as mães da atualidade não usam mais avental, se vestem iguais as filhas, fazem análise para não causarem traumas nas crias, não falam um não, palmadas nem pensar, mas não conseguem agradar. O papo maternal sempre será pra lá de Marrakesh na visão da mocidade.

A coleguinha é que tem sempre razão.

Só acordamos na meia-idade, e aí viramos bezerros gritando mamãe, quando ela já está pra lá de Teerã.

Vou substituir meu analista por um avental. É mais barato e o efeito é igual.

A ser culpada, mãe sempre é, que seja com uma graninha extra pra realizar algum sonho que mamãe brecou. Diminuo a responsabilidade que lhe coube de não ter sido apenas minha coleguinha.


Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 12/09/2005
Reeditado em 22/10/2008
Código do texto: T49957
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
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