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               O FRANGO COR DE ROSA DO PAPAI

                    Depois de dois anos de vãs expectativas, de que houvesse um convite às crianças, para um almoço, pela “outra parte”, este ano, resolvi chamar o pai dos meninos para almoçar aqui em casa no Dia dos Pais, na esperança de ganhar um pontinho lá no céu, com essa minha atitude magnânima.
                    Sou conhecida na família e entre os amigos, como uma excelente cozinheira, mas, queria caprichar no tal almoço, talvez para lembrar ao “falecido” o que ele perdeu ao deixar nossa casa pela porta dos fundos.
                    Estudei uns três cardápios e mudei de idéia inúmeras vezes, mas que coisa séria! Eu sempre fui tão resolvida nesse aspecto, que dei até para estranhar minhas atitudes. - Chisshishi, pensei lá com minha frigideira: - Sai dessa vida, faz logo o franguinho ao forno, básico e para de fricote. Resolvido, será frango, e, nada de peixe recheado ao creme la belle meuniere, que nada, no máximo tentar pela enésima vez da farofa de legumes que comi lá em Divinópolis.
                    Saímos, Sábado, eu e a filha a caminho do “sacolão”, comprar as verduras, enquanto as partes do tal frango jazia em vinha d’alho no meu potinho com tampa, ao lado daquele outro pote, com um doce de pêssego que a ninguém apeteceu, e que vive feliz, há uns dois meses lá no fundo da terceira gaveta da geladeira.
                    Compras feitas, unhas e cabelos impecáveis, vamos à missa hoje (sábado) para não atrasar o tal almoço e no mais, dormir cedo. Nada de Orkut por hoje!
                    Levantei cedo e fui tratar do almoço, já me maldizendo pela infeliz idéia. Eu podia ficar dormindo até mais tarde, depois pegar as crianças e comer uma costela ali na esquina, mas vá lá, dou um suspiro para a minha cama agora só minha, coloco o avental e, fui ao tal serviço.
                    Lembrei-me que, ao embrulhar a carne em papel celofane, esta fica mais macia e cozinha mais rápido, então fui até minha caixa de material de artesanato e tinha lá três folhas de papel celofane: uma vermelha, uma amarela e outra azul. Peguei o vermelho, cor da paixão (pois sim !).
                    Embrulhei os pedaços de frango no papel e levei ao forno e como era cedo ainda, e as batatas para a maionese tradicional já estavam cozidas à espera da minha arte final com a ajuda de um belo pote de “Helmanns” e fui ler um livro.
                    Lembrei então, do frango, corri à cozinha, e ao abrir o forno, meus olhos se recusavam a ver aquela cena chocante e quente:- O papel celofane tinha aderido à pele do frango de uma maneira irreversível. Eu não estava disposta a descongelar nada e tampouco sair para mercado em dia de Domingo (Dominus Dei para os católicos), embora eu sempre dê uma passadinha básica no supermercado depois da missa dominical. Ah! isso é sério!, eu passo por dentro do pátio do mercado para ir à igreja, é quase um imã. Sempre falta alguma coisa ! A verdade é que somos os culpados pelas lojas abertas no Domingo, que deveria ser o dia de descanso para todos, afinal se ninguém comprasse, não haveria para quem vender.
                    Ah! o frango? Agora já não podemos dizer que seja um frango. Lá estavam coxas e sobre coxas que literalmente aderiram ao celofane. Com o calor, óbvio, aderiram também à anilina do papel e ficaram lindamente cor-de-rosa. Se fosse um jantar romântico, ficaria ótimo. Mas, senhores, tratava-se de um almoço para meu EX-TUDO. Certamente ex também nos elogios.
                     Olhei para o frango, afetado e franzi a testa dizendo estupidamente para aquele garfo que eu segurava: - Esse será o prato de maior sucesso na história da humanidade: pollo au vin! Foi o vinho, eu disse, deixou ele assim com cara de personagem de alguma passeata na Paulista. E vocês crianças, não comam muito frango, por causa do vinho que contém álcool, comam salada, farofa deliciosa, a torta de queijo e muita maionese. Ah! deixem um lugarzinho para a sobremesa!
                      Levantei da mesa antes de todos, detesto elogios!
Lili Maia
Enviado por Lili Maia em 13/09/2005
Reeditado em 09/08/2015
Código do texto: T49994
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Sobre a autora
Lili Maia
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Lili Maia