Obsessão

Às vezes me pergunto se estou ficando maluca.

Desde a infância até este momento, na única vez em que eu me questionei foi como se fosse estivesse traindo a todos. Cresci conhecendo uma parte do mundo em que meus pais julgavam ser o mais correto.

Nascer, crescer, morrer. Para muitas pessoas esse é o único sentido da vida. Um começo, um meio até que o fim simplesmente chega. Um ciclo vicioso eterno onde quem desvia do caminho por qualquer circunstância é julgado por isso.

Mas o que é certo e o que é errado?

O certo é você se casar e ter filhos com quem se ama. Mas é errado se essa pessoa for do mesmo sexo.

O certo é você fazer e trabalhar naquilo que você gosta, simplesmente pelo prazer. Mas é errado se esse emprego não lhe der uma estabilidade financeira boa o suficiente. E ainda pior é aquele ou aquela que não trabalha e sai por aí viajando, ou como é expressado no dito popular, vagabundeando.

O certo é você respeitar as pessoas não importa quem seja. Mas é errado permitir a entrada de pessoas mais pobres em certos lugares.

Hipocrisia é a palavra chave na nossa atual sociedade. E muitas das pessoas nem sequer reparam nessas coisas.

Agora eu percebo, mas não é devido apenas à minha indignação com o sistema político ou por causa da falta de oportunidades que abalam a todos, mas porque venho me perguntando a muito tempo sobre o quê realmente é o certo e o que é errado.

Principalmente sobre a garota.

Eu a vejo todos os dias. No metrô, sentada ouvindo música ou conversando com as amigas. Nos corredores da escola ou na pracinha que fica do lado da escola. À sigo com os olhos ou pelo twitter e facebook. Posso tentar esquecer, mas ela parece ter criado raízes na minha mente.

Eu virei refém da imaginação. Uma prisão sem grades que insiste em imaginá-la na minha vida. Mas não de um jeito físico, é muito mais do que isso. É como se já a tivesse conhecido, como se já tivéssemos sido amigas em algum momento atrás.

Tem uma parte de mim que se modifica quando penso em você. De um jeito que eu não posso explicar, passei a te buscar em cada canto por onde eu passo. Quando te vejo tenho vontade de me aproximar e me apresentar... "Olá, sou fulana de tal. Sei que as vezes fico te olhando, mas é que tenho a ligeira impressão de que já nos conhecemos. Sério? Você também sente isso? Então quem sabe podemos virar amigas?" Só que então percebo o quanto isso faria com que eu parecesse uma idiota completa.

O pior de tudo é que não posso, e nem tenho coragem, de contar isso para os meus amigos. Primeiro, porque tenho medo que eles sintam que eu quero mudar meu ciclo de amizades. E em segundo, o que será que eles pensariam de mim? Sou conhecida como a "razão" do grupo, a pessoa mais sensata que sempre sabe o que falar ou como agir, então agora chego a eles pedindo para que me ajudem a conversar com uma garota pela qual ando sentindo um tipo de obsessão amigável?

De duas, uma: ou serei dada como doida ou como lésbica.

E não me ligam a nenhuma dessas características.

O engraçado é que eu a vejo me olhando também, de canto de olho, disfarçadamente. Quando passo ao seu lado sinto o olhar de suas amigas me cercando, fitando-me de cima a baixo.

Agora mesmo, enquanto escrevo isso, numa das minhas olhadelas para frente, onde coincidentemente ela está sentada, percebo que ela está olhando para cá. Não necessariamente para mim, mas com certeza era para algo que estava nessa direção.

Só que, mais uma vez, desvio o olhar apesar da distância segura que havia entre nós, com receio de que ela achasse que eu a estava encarando.

Droga! Mais uma vez cedo a vergonha e não consigo sustentar o olhar, não sabendo se eu era realmente o porquê daquilo tudo.

Será que isso é apenas um tipo de neura? É psicológico? Fascinação ou obsessão? Vidas passadas?

Minha resposta final é que eu não sei.

Mais um dia em que eu não sei nada além do nome desta garota de dreads. Mais um dia em que eu me contentei em saber apenas qual a sala onde ela estuda e em qual ônibus ela entra depois da viagem do metrô.

Mais um dia em que eu simplesmente fecho meu bloco de notas e vou embora, deixando para trás o que poderia ser a amizade mais controversa que eu teria na vida.