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Memórias Frugais

Memórias Frugais

Deitada em minha cama, na penumbra, eu podia visualizar seu sorriso franco expondo toda alegria contida em seu peito. Era uma maneira especial de sorrir, como se abrisse sua alma ao mundo, deixando seus sentimentos visíveis. Eu sentia o fluir de seus pensamentos pela expressão de seu rosto, pelo arquear de suas sobrancelhas, pelos suspiros deixados escapar num descuido. Quando eram mais fortes, passava as mãos pelos cabelos num gesto de impaciência. Às vezes surgia do nada, vinha por trás e me envolvia num abraço afoito, encostando a cabeça em meu pescoço, acariciando meu corpo. Eu sabia discernir quando era um abraço de arrependimento ou quando estava me amando. Até a maneira de respirar o denunciava ao se aproximar de mim. Quando sua respiração era entrecortada eu sabia que tinha algo para dizer-me, mas faltava-lhe coragem. Porém, quando me olhava profundamente nos olhos, toda barreira que eu havia criado em torno de mim, desmoronava-se como um castelo de areia. Naquele momento, tornava-me  totalmente exposta. Tudo que ele dissesse ou fizesse transformava-se em verdades para mim.

Por entre as quatro paredes de meu quarto, na posição horizontal, eu olhava fixamente para o teto. Mas, minha visão ia além do concreto, alcançava a abóbada do céu, e eu podia tocar as estrelas. Era um emaranhado de pontos luminosos, cintilantes, anunciando toda grandeza do universo. Isso, me transportava para um lugar secreto, onde só nós dois sabíamos de sua existência. No qual, tudo era permitido, tudo era passivo de perdão, onde as regras deixavam de existir. Eu podia sentir a brisa roçando minhas faces, os raios de sol aquecendo meu corpo cansado de um dia de verdadeiras loucuras. Porém, o que mais se tornava real para mim, era o toque de suas mãos brincando com as minhas. Sentia o escorregar de seus dedos por entre os meus, causando-me arrepios. O calor emanado de seu corpo envolvendo-me aguçava meus instintos, tornando-me irracional. Cada gesto seu era uma frase sem palavras. Colocando-as na ordem dos fatos eu poderia escrever uma linda estória de amor. Porém, nunca lhe disse que o amava. Essa era uma normativa do instinto de sobrevivência para não cair na pieguice. Enquanto ele me dizia mil vezes ao dia que eu era o ar que ele respirava, que sem mim a vida deixava de existir.

Hoje me arrependo das frases não ditas. Dos gestos dissimulados ou inexistentes que tão bem eu soube disfarçá-los. Das carícias recebidas, mas não retribuídas. Das lacunas de tempo em que eu o deixava esperando por mim. De suas perguntas que sempre ficavam sem respostas porque eu poderia ser interpretada de maneira errônea. Da certeza que ele me pertencia, e jamais me abandonaria. Mas, tudo ficou na lembrança. O seu sorriso, já não o tenho. Em lugar de seu calor só a cama vazia, fria, dissimulada, arredia...


 
mendo
Enviado por mendo em 14/09/2005
Código do texto: T50452
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Sobre a autora
mendo
São Paulo - São Paulo - Brasil
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