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PROJEÇÕES OU REALIDADES

 
“Realidade e fantasia formam uma liga indissolúvel, é como se dissessem: Olhe para sua obra, pecador! Veja o que o espera do outro lado do rio, veja a sombra que se esconde atrás de suas costas!”
Ingmar Bergman

Um cavaleiro retorna das cruzadas, encontra a morte e passa a disputar uma ousada e fatal partida de xadrez. O sétimo selo? Um instigante jogo e a condenação final num cenário dominado pela peste... Não! Por livre associação pensei no filme do Bergman, mas a recordação da obra cinematográfica foi apenas um oásis encontrado para me refugiar da indignação diante da absurda realidade. A arte como reflexão e desvendamento das reais intenções no roteiro costurado por escudeiros, camarilhas, cassados e acusadores... As possibilidades da ficção como translação para as renúncias e o encobrimento dos fatos.
No retorno à realidade, encontro um bufão entre fariseus (fiéis orgulhosos ou hipócritas?), discursando com todo apelo midiático, manipulando as opiniões com tergiversações sobre a condição da mulher, família, honra, dedicação... O intérprete ganha a audiência e a admiração de um grande número de observadores.
A cassação é apenas uma jogada num tabuleiro obscuro que pode ser revertida num outro plano. Uma alardeada guerra fratricida velando e desvelando mensalões e mensalinhos e encobrindo os reais jogadores. Quem tem o poder de mexer as peças?
A morte surge como uma metáfora a assustar os impotentes espectadores perdidos em suas esperanças. A peste é o ceticismo a dizimar os mais idealistas e condenar todos a um cenário de medo ou indiferença. O jogo de xadrez é banalizado, perde a densidade dramática de Bergman e passa a ser um jargão a caracterizar os próximos atos, ameaçar alguns jogadores desgarrados ou desbaratar acordos clandestinos.
Cenas que serão imortalizadas na memória coletiva pela emoção e que deixarão um marco na história da política brasileira. O sentimento de indignação ou de perplexidade não poderá ser compreendido sem ter gravado em si a cicatriz da vivência atual.
Abandono a associação com a obra-prima de Bergman e deixo-me dominar por invasões bárbaras. Novamente encontro o refúgio na sétima arte e percebo, no encontro de uma geração com suas utopias, a aproximação da morte e a necessidade de se reconstruir a todo o momento.
Os discursos cada vez mais alegóricos estão desfalcados dos pensamentos que alicerçaram os movimentos de conscientização e de formação das correntes filosóficas. Imagens dos depoimentos das diversas comissões poderiam estabelecer relações com outras películas, mas, para o olhar atônito, restou apenas o espetáculo empobrecido, a contagem dos trezentos e treze votos e a percepção de algumas ausências no plenário com a releitura das entrelinhas dos novos fatos noticiados.


Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 19/09/2005
Código do texto: T51820
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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