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Flor dos 64

Na flor dos meus 64 anos, lembro-me claramente minhas brincadeiras de meninote.
Aprontava aqui, e ali, sem medo de pisar descalço no chão, correr pelas ruas, brincar de esconde- esconde, roubar goiabas da casa das vizinhas, amarrar bombinhas nos rabos dos gatos e cachorros da rua, fazer carrinhos de ossinhos, tomar banho de açude...
Ah! Como gostaria de voltar no tempo, como gostaria que o tempo voltasse nele próprio.
Hoje olho pela televisão tudo que acontece no mundo, e fico horrorizado.
Era bem melhor quando eu não sabia, ou não via... Não sei explicar se tanta violência acontecia e era escondida entre as vielas muito estreitas das minhas ruas, hoje possuída por carros potentes, pessoas apressadas, e crianças que não vemos.
Pois é, as crianças não brincam mais como eu brinquei. Elas foram trancafiadas em seus próprios mundos, sem ter a chance de experimentar a flor da idade delas. Acho que, todas as idades são flores, que devem ser cultivadas e amadas, unicamente a cada dia.
Hoje nem posso respirar, o ar está tão pesado, que me faz mal. Muito ao contrário de alguns poucos anos atrás, quando fazia todas as peripécias infantis e nem ao menos dava um espirro.
Tenho um sentimento de pena para com meus netos. Chamam-me pra brincar de videogame, navegar na internet, assistir TV, mas, eu não vejo nenhuma graça nisso tudo.
Eles são condicionados ao "conforto" do lar e a "segurança" da família, e deixam de experimentar coisas surpreendentes.
Quem vive na flor dos meus 64 anos, tem histórias pra contar da sua infância, e meus netos terão histórias pra contar além de pontuação de videogame, e dietas para não engordar?
Aprendíamos a respeitar nossos mestres, tínhamos aulas de boas maneiras, de francês, de culinária, e tantas outras coisas, mas hoje, vejo mestres doentes porque os pais de tão ocupados, deixaram para a escola a educação de seus filhos, falo de educação de bons modos, convívio social, respeito.
Atualmente não há mais respeito com ninguém, nem consigo próprio. Há uma super proteção com essas crianças, que não têm mais limites, aliás, elas nunca tiveram além do limite das "grades residenciais".
Mesmo com tantas leis não se têm mais respeito com pessoas como eu, que construíram esse futuro que hoje é presente pra tantos, e inclusive eu.
Nós temos tanto a ensinar, mas nada nos é perguntado. Temos tanto pra contar, mas não podemos, existem babás eletrônicas que contam histórias melhores que nós.
As crianças perderam a imaginação ou estão vivendo num mundo tão virtual, que vivem numa imaginação contudo distorcida da realidade.
Como sinto saudade dos velhos tempos!
Não víamos pais explorando crianças nos sinais de trânsito, frutos da irresponsabilidade, de tanta gente, mas pena que ninguém assume para si.
As pessoas estão desmemoriadas!
E depois, os desmemoriados somos nós, que vivemos na flor da nossa bela idade.



Priscilia Nascimento
Enviado por Priscilia Nascimento em 20/09/2005
Código do texto: T52070
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Sobre a autora
Priscilia Nascimento
Recife - Pernambuco - Brasil, 35 anos
222 textos (24433 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/16 15:38)
Priscilia Nascimento