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MEIOS-FIOS

Na outra calçada, uma jovem mulher grita, clama por Deus, blasfema, e prossegue com sua reinventada história do mundo com os mitos presentes em todas as religiões: travessias, dilúvios, milagres, seres malignos, bem-aventurados... Seu discurso é coerente e proferido em tom apaixonado. Suas palavras a desgarram do rebanho e, num momento de grandeza, ela se torna pastora...
"Quer vê-lo? Sou eu! Sou Deus!"
As palavras da estranha personagem ecoam na noite fria curitibana. Vestida com discrição com roupas de cores claras, ela passa horas, com os braços cruzados sobre o ventre, desatando os nós de sua lucidez nos gritos ensandecidos lançados para ninguém. Poderia usar a oratória para conquistar discípulos, mas abandonada ao meio-fio é apenas mais uma louca em busca de um deus, em busca de si... Perdeu as margens, contudo permanece represando os absurdos do mundo numa linguagem cifrada.
Protegidos de suas palavras, os turistas a observam através das janelas do luxuoso hotel. Quantos olhos não a espreitam reprovando sua atitude? Quantos não invejam a liberdade de sua loucura? Quantos não lhe são tão-somente indiferentes?
Uma praça, uma universidade, um teatro... Uma rua com meios-fios distintos. Um sustenta a fantasia, a possibilidade de ser distante do dia-a-dia e olhar o mundo com os olhos de recreação, o outro abre a realidade na chaga da loucura de um ser abandonado de si próprio e condenado a gritar o que não suporta interiorizar. Uma mulher que, sem saber, assume a autoria das feridas provocadas pelos espinhos do inconsciente coletivo.
"Quer vê-lo? Sou Deus!"
O porteiro do hotel se irrita com a repetição, mas se sensibiliza com a solidão da personagem anônima. Há horas a mulher grita para ninguém, olha para ninguém... Talvez alguém a escute... Mas perdida em indefinições, perde a percepção de ser na possibilidade de estar em alguma projeção. Um sujeito indeterminado que será esquecido no amanhecer de uma nova oração. Ela não resistirá à madrugada, sua voz não poderá verter o sangue de sua alma e adormecerá presa ao galho ressecado do silêncio.
Corta a cena.
Em um quarto de hotel, um advogado recém-formado tenta relaxar distante de casa.  Liga a televisão com um movimento involuntário e tem a atenção seqüestrada pelos noticiários. Nada mais o surpreende, nada mais o revolta... Parece que aprendeu a suportar a realidade como uma suposição, perceber o mundo com a manipulação das notícias. Apenas o que sente se aproxima do real e mesmo assim está envolto na ficção do que poderia ser caso... Tenta acompanhar os relatos com atenção, mas os últimos fatos não encontram sustentação nos primeiros acontecimentos. Não há motivação, não há identificação exata... Infelizmente ainda não perdeu a razão e se pergunta onde estarão as travessias, os predestinados, as cruzes...
Alguns... Muitos... Ninguém...
O jovem abandona as imagens dos protagonistas políticos e se refugia nos brilhos da noite apoiado no parapeito da janela. Na outra calçada, uma mulher grita continuamente, mas o vidro os interrompe. Ele sente empatia pelo abandono da jovem e a observa no desesperado silêncio imposto por algumas distâncias.

Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 21/09/2005
Código do texto: T52493
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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