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Destino, o inesperado!



Ontem fui visitar um ex-aluno, que há tempos não via. Menino muito querido e que adentrou meu coração desde a infância.
Ao chegar, sentia-me um pouco desconfortável, pela emoção incontida que me pesava a alma.
Dia nove do mês passado, ele sofreu um acidente de moto e há dois dias apenas havia chegado em casa.
De início, havia a possibilidade de ficar tetraplégico, mas a cirurgia reconstruindo as duas vértebras moídas, através da ajuda de uma prótese, alterou o quadro amenizando, em muito, a tensão que pairava à sua volta.
Era hora do almoço e aproveitava esta pausa de atividades para fazer tal visita. Fui recebida pela mãe, amiga de longa data, parceira na juventude, de bailes e brincadeiras no clube. Uma época em que não precisávamos de motivos para rir, já que tudo era engraçado, simples e bom.
Abraçamo-nos retomando a custo um fiapo daquela lembrança que nos amparou neste instante. E logo me vi frente ao garoto. Estava agora com 29 anos. Lembro-me tanto dele aos oito ou nove, quando chegou à escola pela primeira vez. Loiro, cabelos lisos, e um olho azul celeste que lembravam duas contas preciosas. Não era tão encorpado nem tão alto, mas o conjunto era harmonioso e atraente.
De imediato busquei seu olhar. Estava sentado na cadeira de rodas, na cabeceira da mesa, almoçando. Quando nossos olhos se encontraram, algo quase mágico aconteceu. De pronto me senti acalmar, e mergulhei nas profundezas daquele azul, tão celestial estava naquele momento. Não havia medo, nem susto, nem raiva, nem vazio! Encontrei nele a mesma expressão que me lembrava do passado, quando nos falávamos discutindo trivialidades amenas ou não.
Ele nunca foi líder, mas era um conciliador nato. Brotava dele, desde tenra idade, uma harmonia espontânea, que provocava acordos naturalmente. E nestes momentos ele era o centro das atenções, para logo depois voltar à posição de retaguarda, como se fosse apenas um guardião e jamais esperasse ser reconhecido por tais feitos.
O olhar era o mesmo, e causou-me a mesma sensação de paz que em outros tempos reconhecia. Aproximei-me, sorriso nos lábios e, desconfio, com meus próprios olhos brilhando muito.
Em questão de minutos a conversa fluiu fácil, leve e comedidamente alegre. Meu desajeito costumeiro, que me leva a dar invariavelmente alguns “foras”, manifestou-se sem pudor pelo tempo que havia passado, não se importando de ser reconhecido como marca registrada de alguém estabanado.
Mas, uma coisa me tocou fundo, a serenidade com que em dado momento ele se expressou, contando como conversava diariamente com sua medula e todo seu corpo e como estava conseguindo algum progresso por conta disso; sentindo que este respondia favoravelmente a atenção especial que prestava e aos pedidos que acompanhavam este colóquio.
Confesso que me surpreendi. Encantei-me sobremaneira com esta atitude de não resistência, de uma ingênua simplicidade ao lidar com algo tão delicado e, tão grave.
Fiquei mais um tempo conversando, e rimos de algumas lembranças e atrapalhadas minhas, e então, me despedi, prometendo voltar logo fosse possível.
Ele vai para a AACD, fazer o diagnóstico e iniciar o tratamento para recuperação. Contou-me isso com a tranqüilidade de quem tem a certeza de ser o caminho que o levará à solução de seu problema.
Ao sair e ficar só, parei por um tempo refletindo sobre tudo que havia experimentado nos últimos quarenta e cinco minutos.
Que fantástica é a vida, e que lições vamos colhendo das situações mais inesperadas! Não pude deixar de refletir que tantas pessoas que conheço se desesperam por tão pouco; blasfemam e apontam culpados por seus infortúnios e se colocam em posição de vitimas, aguardando que o mundo resolva cultuá-las como merecedoras de benesses sem fim... Na verdade comportam-se como se o mundo todo tivesse a obrigação de resolver seus problemas e garantir que possam ter suas necessidades satisfeitas.
Quantas vezes nos vemos em situações difíceis e temos a tendência a reclamar, sem nos dar ao trabalho de parar, respirar fundo e analisar com sossego o que se passa, tentando encontrar uma saída; não permitindo que a auto piedade, o egoísmo e a vaidade falem primeiro.
Fiz esta visita pensando que iria agradar alguém, talvez imaginando que seria útil de alguma forma. Ledo engano, ao contrário do que imaginei fui eu a beneficiada, recebendo uma lição sem precedentes. Um jovem, lindo, inteligente, iniciando a vida, se vê na iminência de ter o rumo dela totalmente alterado, limitado em muito, talvez o levando para lugares e experiências que nunca idealizou; e encarando tudo com calma, esperança, fé e firmeza.
Fiz uma breve prece agradecendo a oportunidade que tive e pedindo que abraçasse com carinho adicional esta criatura tão especial!
Fui para casa lentamente, dirigindo sem pressa e pensativa, buscando acalmar meu coração que se agitava mergulhado num misto de emoções difusas.
Em minha atividade profissional, estou sempre envolvida com o comportamento humano, e jamais deixarei de me surpreender com a magia da vida, com a força surpreendente do ser humano, quando o mesmo está conectado com a autêntica fonte da vida.
Quem tem fé, que compreenda; quem tem esperança que siga as pegadas deste jovem maravilhoso que tive a felicidade de conhecer.




Priscila de Loureiro Coelho
Enviado por Priscila de Loureiro Coelho em 21/09/2005
Código do texto: T52605
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Sobre a autora
Priscila de Loureiro Coelho
Jacareí - São Paulo - Brasil, 65 anos
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Priscila de Loureiro Coelho