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CHARLAS DO ALTIPLANO E DO PAMPA – PRIMEIRO MATE

Primeiro mate (1): em meio à neve e ao vento.

Estamos em Los Andes, o pórtico de entrada do Chile pela rota da Cordilheira, com os sapatos úmidos de suor e sal. Aqui a vida se desenrola sem a linha do horizonte à frente. Tudo é terra carnuda e dobrada como um dorso de gigante adormecido,

A água gélida corre forte em cada rio, e tem sua voz própria em cada arroio, em cada valo, junto às uvas, ameixas e nectarinas. Não há sarjetas plácidas e turvas por aqui. Nem os girinos das rãzinhas da infância, no Arroio Pepino, em Pelotas, verdadeiro desespero da abençoada mãe.

Tudo é aparentemente rijo nesta terra de rochas, casas de estuque, cal da cor da terra, onde orações e cantilenas de louvor à Virgem no idioma castelhano já se ouviam desde o século XVII. Os nativos se cristianizavam criteriosamente, desde que trouxessem ouro para os altares. Um pouco diferente das Missões do Alto Uruguai, no Rio Grande de São Pedro, onde os soldados de batina preta de Santo Inácio de Loiola pediam madeira para sacralizar o místico, ensinando o uso do cinzel para as esculturas, e não deixando o guarani abater as primeiras cabeças de gado provindas do vice-reinado do Prata.

A Virgem do Aconcágua está alçada por sobre o eixo da Cordilheira, ali é o seu lugar, nas alturas, a mais de mil metros. Está reproduzida em centenas de alvas cruzes saudando a divindade pelos séculos e séculos. Em cada capela, o Cristo morto tem asas de condor, e a “Difunta Corrêa” alça-se das encostas na pequenez do humano e nas orações do povo.

Dos lançantes inóspitos das encostas a cada recanto dos formidáveis rochedos, a alma humana cavou trincheiras de adoração. Nunca vi tanta ‘capelinha’ com velas, flores e água, muita água, nos mais variados recipientes, desde garrafões de vidro ou de barro aos frascos plásticos (pet) de refrigerantes. Há monturos deles junto a cada recanto de oração.

O importante é que não haja sede insaciada, e nunca termine o degelar constante da neve nos picos da Cordilheira, porque é isto o que garante a vida nestas plagas: o degelo. A água corrente é o sangue no coração andino. É tão forte, biologicamente, que se transforma em vinho pelo milagre das uvas. O verde-oliva dos parreirais é parceiro da rocha e dos ventos.

Aliás, a Difunta Corrêa merece ser lembrada em sua terrena trajetória. A tradição oral, com o seu halo de “quem conta um conto aumenta um ponto” repete dia-a-dia com espanto e respeito, a sua peregrinação. Era a guerra. Seu marido, o soldado Corrêa, argentino da pampa em luta contra os chilenos, subiu as montanhas pelas bandas de Mendoza e se perdeu no mundo. Sua mulher, com um filho de três meses nos braços, ensandecida, foi atrás, louca de amor e saudade. Era moça e sabia dos desejos e impulsos. Foi encontrada na Cordilheira, cadáver de três dias, morta de sede, dura de frio, mas o seu filhinho estava grudado na sua teta, e foi salvo.

É por isso que ninguém naquelas bandas pode sentir sede. As orações nas casas, nos povoados, nas capelas dos sopés, garantem que nunca vai faltar água na pampa e nos caminhos dos Andes. Argentinos e chilenos estão juntos na paz por mais de dois séculos. A “Difunta Corrêa” reina absoluta no imaginário. Tem até cidade com o seu nome.

Aqui nunca chove, porque se chovesse, a montanha esfacelada em pequenas rochas arrasaria tudo o que estivesse em seu caminho. A chuva na Cordilheira vira neve. No inverno, flocos se acumulam por todo lugar, e fogem com o vento, abrindo caminho para os que vivem no rasteiro, nos vales, nas estradas das mulas, nas veredas de vertigens dos andinistas e no asfalto. Entretanto, nos picos e, em especial, no Aconcágua, com os seus quase sete mil metros de altitude, tudo é geleira permanente. Esta serve de nicho definitivo para o malfadado alpinista. Uma imensa alvura cobre este cemitério de vida e morte. É tal um lençol permanentemente limpo e estendido.

Dar e tirar a vida, esta a função das alturas nevadas. Creio que Deus está vivo nestas paragens. Paira por aqui pra observar o mundo, exercitando a onisciência. É um ciclope com o olho no passado, presente e futuro. Abençoa os do lugar com o hálito gelado de seu suspiro pela humanidade. Sinto um calafrio ao senti-lo tão perto.

A Pacha Mama, o ventre da mãe-terra, vem sendo rasgado há séculos por peregrinos com fome de vida, terra, riqueza, sobrevivência. Muitos foram engolidos pelos caminhos. As cruzes anônimas postergam a vida passada.

Os caminhões brasileiros da REBESQUINI (em um deles está o meu corpo, eis que o espírito andeja por sobre os picos gelados) roncam a 10 km por hora. O coração de cada um de nós se reparte entre o medo e o dever de cumprir a contratada tarefa de entrega da carga.

Pioneiros peregrinavam por aqui, muito antes dos tratados entre os estados sul-americanos. A cada dia são clonados novos vanguardeiros, frutos da pertinácia, da coragem e da ânsia de cumprir a sina de andar, andar e andar nos eixos do MERCOSUL. Nos dias atuais são muitas centenas pelas trilhas de San Martí e Bernardo O’ Higgins. Retemperam ânimos e ajustes que ficaram no atavismo americanista.

Não é peregrino aquele que caminha, mas sim a criatura que cumpre algo no caminhar. A teoria se vivifica quando estamos vigilantes na busca.

Nesta aldeia abençoada, que resiste ao século XXI, entre a lerdeza dos despachantes, a fúria das aduanas e a corrupção policial, estacionamos a alma exausta.

Porém, no rancho da saudade, o Rio Grande do Sul é um pontinho vivo na memória, batendo forte no velocímetro do caminhão.

(1) Ou mate-chimarrão: Infusão de erva-mate preparada em cuia de porongo e sorvida por meio de uma bomba. O mate é uma bebida saudável, tônica, estimulante e reconfortante. O hábito do mate-chimarrão é muito difundido entre os habitantes do Pampa, das imensas planícies de três pátrias: Brasil, Argentina e Uruguai. Mesmo que o mate possa ser compartilhado, como ocorre no Rio Grande do Sul, para que se possa sorvê-lo leva algum tempo, e é uma tarefa solitária. O autor usa esse tempo (para sorver a bebida) como metáfora para a reflexão que irá fazer, propiciando a abordagem pessoal que dá origem à crônica.

– Do livro O HÁLITO DAS PALAVRAS, 2005/2009.
http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/53163
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 23/09/2005
Reeditado em 03/11/2009
Código do texto: T53163
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Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 70 anos
2581 textos (709622 leituras)
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Joaquim Moncks