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Domingo - ruas desertas.

Hoje resolvi vencer a inércia e, mesmo sem companhia, caminhei. Não conversei, não falei. Poderia ter metido conversa com uns velhotes no Campo Grande, que, invariavelmente, passam as tardes de sábado e domingo e as outras, a jogar às cartas no jardim. Mas não, o meu objectivo era chegar ao Saldanha, por isso não me detive. Há que andar, caminhar, vencer a má circulação sanguínea e a obesidade ganha com má alimentação, correrias casa-trabalho-casa e estar, fatalmente, em pé ou sentado, leccionando. À noite, o sofá, a televisão e o computador são os aliados do mafarrico, procurando almas para o seu império. Ir à rua? Caminhar? Como? Para quê? Não há ninguém e o medo domina; um medo mais de tédio do que de outro tipo qualquer. O Diabo agradece, Deus esquece e o Homem e a Mulher mirram o corpo e a alma.

Acelerei o passo. Passei os olhos pelos cartazes e espaços publicitários plantados nos passeios, conversando com eles. Em Lisboa, aos sábados e domingos, a cidade, fundamentalmente o seu coração, desde as Avenidas Novas até à baixa – lugar de excelência, ou assim deveria ser - é quase um deserto de gente, que prefere a desgraça dos Centros Comerciais, com cinemas perdidos nessas estufas de gripes e cotoveladas. Comparado com eles, o metropolitano em hora de ponta é uma benção – os corpos esmagam-se, mas ninguém, ou quase, se queixa e, por vezes há sorrisos e conversas de ocasião, breves, mas conversas. Nada mau.
Vermelho no semáforo, paragem obrigatória para este peão que não quer parar, mas andar, andar sempre para não atrofiar os músculos. Conversei com um painel: “Dia das artes marciais” – Judo, Karaté, Jiu Jitsu e outras. Cá em baixo, quase no fim, medroso, o Jogo do Pau,  a equivalência portuguesa, que não o é, às artes marciais orientais.

A meio do Jardim do Campo Grande. Diante de mim impõe-se um agradável edifício-urinol, outrora muito frequentado, agonizando agora com os seus vidros esventrados e corpo abandonado pela incúria e o desleixo da edilidade e a indiferença dos lisboetas resignados ao ter que ser do jogo das cartas junto de um parquezito no qual algumas crianças brincam pachorrentamente e sem gritarias.
A campanha eleitoral já não anda por aqui; aliás para quê investir na animação do jardim? Que chatice. Pessoas no dito com música aos sábados e domingos sai caro, bastam as promessas de “Um jardim em cada bairro”; é mais barato do que restaurar os que existem. Então prometem. Umas inaugurações, aqui e acolá, e as eleições até acabam por ter um efeito anti-depressivo. Talvez por isso a Casa-Museu Rafael Bordado Pinheiro, há tantos anos para obras, lá abriu.

Umas obritas arrastavam-se indolentes na Avenida da República. Sete homens dão o seu o melhor, alguns, claro. Um conduz a máquina de alcatroar, alisando o piso com a sua obstinação, dois, de olhos no chão, varrem as areias negras, os outros quatro, no passeio, cavaqueiam e sorriem, olhando para os outros, de um modo algo cínico e trocista. Os que olham são brancos, os que trabucam são negros. Andei mais depressa, não fossem aparecer por ali, coisa improvável naquele pasmo, negros de segunda e terceira gerações, com pouca disposição para trabalhos de rua daquele tipo. Antes o gamanço e a intimidação do assalto e do não faz nenhum numa aliança táctica impensada com os branco de fazer cera.

A Praça do Saldanha estava próxima e o meu objectivo também: ver como andava o Cartão Clube Medeia que o Paulo Branco, homem do cinema, astuto e empreendedor, como se diz agora, divulgador do papa-filmes Manoel de Oliveira, tinha criado há anos. Afinal acabara. Actualmente vigora o King Card Medeia. Vi logo que por ali andavam bancos; e não é que andavam mesmo...

O Card é um cartão de anuidade com pagamento de cento e cinquenta euros anuais, dando acesso a todos os filmes em exibição. É uma estratégia de fidelização do cliente e mais uns ganhos para o Paulo, pois o já nostálgico, de três anos, Cartão Clube Medeia, apenas com cinco euros para a execução do mesmo, permitindo todos os dias o preço de segunda-feira, tinha ficado velhinho. O Eurípedes, com estes truques de “marketing”, de certeza teria escrito uma Medeia ainda mais agressiva. Melhor estratégia a primeira, melhor a segunda? Não sei. A classe média esclarecida resolve o assunto porque tem dinheiro para isso. Por mim, a Cinemateca não fica longe e, espero, ainda deve conservar o Cartão de Amigos da mesma, com reserva de bilhete pelo telefone e entrega da programação pelo correio, saindo mais barato. Quando pretender vou ver os filmes quando quiser, sem anuidade e fidelizações. Não sou um consumidor inveterado de qualquer coisa, como filmes e outros produtos. Consumo o que quero e o que tem que ser, conseguindo ter algum discernimento. Ora lá caí eu no maldizer, não se nota muito, mas caí.

Objectivo cumprido, restava-me a volta. Esperava-me a compra dos ovos no supermercado, pois não os tenho de criação. Só não percebi um coisa. De manhã fui à feira da Malveira, sai mais barato, os alimentos são nacionais e bons e o carro anda uns quilómetros, compensando de longe a gasolina, contudo por que raio não trouxemos os ovos? Esclareci a questão: os ovos não se trazem de um sítio qualquer, ou seja, sem conhecer, de facto a origem – não basta serem daquela feira.


Ora lá ganhou a standardização normalizada e globalizante com selo Pingo Doce.


José Manuel Marinho
Enviado por José Manuel Marinho em 26/09/2005
Código do texto: T54032

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Sobre o autor
José Manuel Marinho
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