Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

CONTINUO TENTANDO...

O tédio é tão grande que eu resolvi falar dele e ver se ele se toca e se manda! Nada... Continua aqui e ainda acho que é porque eu permito. Não que eu queira ele por perto, mas eu deixo ele ficar por aqui. Vou tentando espantar essa praga das mais variadas maneiras. Abro e fecho arquivos no meu computador. Vou ao banheiro e volto, simplesmente assim, sem fazer nada mesmo. Vou até a cozinha e bebo água mineral e fico tentando descobrir seus diferentes sabores relacionados à temperatura ambiente de cada hora do dia. Tudo porque não tenho nada que preste para fazer.

Fui gerado, criado e programado para produzir. Ficar parado, curtindo um tédio básico, simplesmente vai contra os princípios mais moralistas de todas as minhas moléculas. Tenho que estar em constante atividade e essa deve, constantemente, gerar algo novo, de valor. Esse é o segredo do sucesso!

- Que sucesso, animal?

E ainda por cima tenho que ficar agüentando o Edgar (meu alter-ego) gritando esse tipo de coisa dentro da minha cabeça...

- De que sucesso você está falando? Não estou vendo nenhuma enzima aqui nas redondezas de onde eu vivo atestando que você é um cara de sucesso.

Como eu ia dizendo, o tédio é uma droga. E no sentido mais entorpecente da palavra. Ele chega a provocar náuseas e dor de cabeça. Isso quando eu não beijo o monitor com a minha testa por causa do sono que esse tédio desgraçado causa no meu organismo!

- Pura balela... Blá, blá, blá...

Fico imaginando o que esse infeliz do Edgar fica fazendo enquanto eu fico aqui corroendo os ossos e os pensamentos tentando achar uma saída prá esse marasmo, esse embasbacamento, essa admiração imbecil do nada na qual, algumas vezes, meu dia se transforma.

- Eu fico só olhando a tua miséria, bundão! E, sem poder fazer nada, mesmo porque você não acredita muito em mim, apesar de eu ser um cara de absoluta confiança, fico com um pouco de pena. Olha esse sol lá fora, jumento! Você fica aí, trabalhando? Viva a anarquia sindicalizada da preguiça!

Como eu ia dizendo, tento de tudo... Inclusive, esse remédio que eu acabei de ingerir (escrever esse texto) prescrito por mim mesmo e que faz parte do meu tratamento contra o tédio, minimizou o poder desse maldito sobre a minha carcaça cansada, mas eu sei que, assim que eu chegar no ponto final, ele vai voltar com força total e se instalar bem aqui do meu lado, fazendo da minha respiração profunda, um esforço. Que saco! Tédio de merda!

- Pura balela...

Cala a boca Edgar!
Rafael Zanette
Enviado por Rafael Zanette em 27/09/2005
Código do texto: T54338

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Rafael Zanette
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil
52 textos (3630 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 21:50)
Rafael Zanette