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Os galos já não tecem a manhã...

Os galos já não tecem a manhã...
 
Fatima Dannemann
 
Cade os galos que teciam as manhãs? Aqui onde moro não tem galo nenhum num raio de alguns quilometros. Mas quem quer acordar com galo cantando cocororocó? Onde eu morava antes de me mudar para cá haviam galos. Isso por conta de uma favela ali perto. Toda madrugada, na mesma bat hora, o primeiro galo cantava cororocó, ai vinha o segundo galo, o terceiro e de repente era um verdadeiro coral. Ai, o liquidificador do vizinho pontualmente batia a vitamina do nenem e eu acordava.
Os galos marcavam o final dos sonhos. Vai ver e por isso foram banidos das cidades grandes onde é preciso sonhar muito para aguentar o tranco. E se a vida na cidade, entre asfalto e concreto, já é complicada para os seres humanos, imagino que para os galos deve ser pior ainda. Nos prédios, não se aceitam mais cachorros, onde os galos vão morar? Ovo passou a ser um produto de supermercado e para muita gente galinha é apenas uma máquina chamada chocadeira. Ou seja: o galo em cidades grandes é animal em extinção.
Não totalmente extinto, é obvio, porque na periferia, acredito, ainda deve haver galinhas. Aqui perto de onde eu moro há até vaquinhas que de vez em quando atrapalham o trânsito na hora do rush. Mas é raro vê-las passando. Quanto ao galo, na era dos frangões, chester e outros bichos esquisitos, eles ficam reservados ao jardim zoológico. Sim, ao zoo. Passei por lá e vi numa gaiola como se fosse um grou coroado ou outra dessas aves exóticas.
E fica dificil tecer manhãs. Sem galo por perto, eu acabo dormindo até mais tarde. Acordo com o sol no rosto, pulo da cama e grito: "perdi a hora de novo". Boto a culpa num vizinho que nem conheço que mora numa casa com um quintal onde ele cria cachorros e um papagaio que grita o dia inteiro. "Bem que ele podia criar um galo", eu penso. Mas... Convenhamos que alguns galos não tem muita noção de hora. Cantam quando ainda é noite cerrada e vão repetindo o corocócó a noite inteira. Onde eu morava antes era assim.
E os galos sumiram, mudou-se o horário da missa do galo para mais cedo e a culpa nem é do padre, mas do próprio galo que não se adaptou a vida de concreto e asfalto. E enquanto na cidade se precisa sonhar muito para aguentar o tranco, em outras partes do mundo, em lugares ditos "menos civilizados", o galo continua quebrando os sonhos e anunciando a hora de acordar. Mas ainda tece as manhãs, em companhia de outros galos. Fazendo uma verdadeira orquestra. Aqui? Bom, tenho o liquidificador do vizinho batendo a vitamina do bebê e o sol que me acorda todas as manhãs lembrando que nenhuma hora é perdida, nenhum sonho é quebrado e as manhãs podem ser tecidas por todos nós. Mesmo sem galos.
 
 
Maria de Fatima Dannemann
Enviado por Maria de Fatima Dannemann em 28/09/2005
Código do texto: T54693
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Sobre a autora
Maria de Fatima Dannemann
Salvador - Bahia - Brasil
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Maria de Fatima Dannemann