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Rosa Urbana

Rosa Pena

 

 

O primeiro dia de aula depois das férias e sua invariável redação.

No quadro-negro a frase: conte-nos suas férias.

Eu tinha oito anos, quando tirei meu único zero em redação e ganhei um beijo do meu pai, em vez de um esporro. Tinha passado as últimas férias na casa do Seu Abílio, um amigo de infância de papai, no interior dos confins. Sempre que ele vinha ao Rio de Janeiro, mamãe fazia uma peixada e ganhávamos doces caseiros da fazenda dele. Ele sempre ficava poucos dias, indócil para voltar pra sua terrinha, chamando aqui de inferno.

Era um sítio bem grande e, pelo que me contaram antes, era uma maravilha, pois tinha cavalo, leite fresquinho tirado da vaca, cachoeira, fruta ainda no pé, galinha, porco, e tudo o que uma menina urbana jamais conviveu. Seria algo fabuloso para minha vida poluída de metrópole.

Esqueceram de me dizer que lá não tinha TV, nem criança alguma por perto, mosquito adoidado, leite não pasteurizado que dá um piriri filho da mãe, que a água da cachoeira era gelada e que eu e minhas irmãs teríamos que dormir com dona Mirtes, mãe do Seu Abílio, uma senhora com excesso de flatulência e eructação. Também foi omitido que ele era um machão autoritário, que gritava com sua senhôra, que considerava crianças seres inferiores, que não deviam se sentar à mesa com os adultos, e, pra piorar, lá o menu era inhame e pato todo dia, bife com fritas nem pensar. Coca, jamais; caldo de cana é que tem sustância.

Tomei uma ferroada de marimbondo no primeiro dia e ouvi dizer que “até casar passa”. Imaginei-me anos a fio com aquela dor marimbondal, sentada no vaso, deixando o registro do leite in natura.

Voltei para o Rio de Janeiro magra e alucinada por ver TV. Acho que é assim que Seu Abílio se sentia quando passava dias aqui e tinha tanta pressa em voltar. Agora olho com indulgência a bronca dele por cidade grande: habitat é habitat.

Volto para o primeiro dia de aulas. Fazer a bendita redação. Pensei muito no que poderia escrever e, pela primeira vez, desafiei a professora, entregando-lhe apenas três frases:

Odeio inhame e marimbondo.

Patos foram feitos para nadar.

Adoro TV e Coca-Cola.

 




LIVRO UI!
Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 29/09/2005
Reeditado em 25/10/2008
Código do texto: T54771
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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