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VOZES DO VENTO

Lá fora o vento uiva intermitente.

Que diálogo é esse com resposta vinda de longe, qual
big-bang anunciando o despertar da criação?

Na rua serpenteada os notívagos da buate gay são abrigados pela luz tênue da noite. Vestidos quase todos de preto, falam alto com vozes híbridas de hermafroditas boêmios.

Mesas tomam as calçadas dos bares de esquina. É sexta-feira. Regam com cerveja a semana finda. Carros congestionam a via iluminada de néon. Lá embaixo fica mais uma catedral do consumo – um shopping center, alternativa para refugiar-se do vento, da violência, da rotina semanal. Lá cervejas e porções são mais caras. Cinema e teatro também. Tudo.

De vez em quando, já alta madrugada, gritos roucos cortam a ventania, embarcando em táxis brancos. Ou desembarcam, ao som de vitupérios, por um serviço não pago conforme o combinado na tabela de prazeres, de taras, de fantasias ou sabe-se lá o quê.

Nesta altura, percebo quão difícil é dissertar sobre o vento, surpreendo-me com ele trazendo-me a realidade deste bizarro ambiente de entretenimento que me avizinha.

Enfim, o vento sussurra a música como fazem os animais machos para atrair a fêmea, no ritual da perpetuação da espécie. Ouve-se em resposta um som que se aproxima devagarinho, baixinho, culminando no auge com o encontro dos ares em uníssono vibrante, alto, forte, em perfeita orquestração.

Na batuta da noite, trava-se dança fecunda, anunciando mais uma aurora, um talvez solar primaveril, ainda que chuvoso.

Noites assim convidam aos sonhos, ao aconchego, ao encontro de corpos em acalanto, desnudos sob edredons acolhendo  amantes na delicadeza de afetos, beijos e carícias de mãos febris em preliminares de gozo e êxtase de amor e sexo.

Tento dormir lendo um livro, desfiando terço do rosário, ou rendo-me à insônia clicando estas letras na tela do pc.

Mas as vozes lá de fora alcançam meu quarto, sinto-me invadida pelo seu hálito gelado, pela sinfonia erótica dos ares em movimento, pelas vozes híbridas dos gays irreverentes, pela juventude embriagada na busca de prazeres frouxos.

Um pouco mais para cima, acontece uma vigília na igrejinha da rua serpenteada. Estará tão concorrida quanto esses lugares de alegria ébria? Academia do espírito. De graça.



30/09/2005
DIANA GONÇALVES
Enviado por DIANA GONÇALVES em 01/10/2005
Reeditado em 01/10/2005
Código do texto: T55284
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
DIANA GONÇALVES
São Paulo - São Paulo - Brasil
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