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Esse mundo anda tão louco

Eu pensava que não tinha motivos, mas quando deitei a cabeça no travesseiro, chorei até parar. Quando parei, busquei os motivos. E chorei tudo de novo.

Chorei porque minha prima de 15 anos tem saudades da mãe, mas tem que morar longe pra estudar num bom colégio.
... porque meus pais passaram nove anos agüentando as saudades de mim pra eu estudar num bom colégio, fazer uma boa faculdade, e terminar desempregada.

Chorei porque dou nó em pingo d’água pra não me empanturrar de comida, enquanto que a poucos metros há quem queira ao menos uma vez na vida poder se empanturrar.

Chorei porque passei a vida inteira vendo meu pai trabalhando honestamente para uns poucos se esbaldarem com o mensalão.
... porque quero conhecer o mar do Rio de Janeiro, mas não recebo mensalão.
... porque há quem não conheça mar algum.

Chorei porque da última vez que visitei minha avó ela não me reconheceu, mesmo eu sendo uma das netas mais presentes.
... porque nunca mais vou sair do colégio, ir pra casa da vovó, e comer o tijolinho de leite, saído do forno, que ela fazia.
... porque nunca mais vou estudar num colégio perto da casa da vovó.

Chorei porque o telefone nunca toca pra mim.
... porque quando toca, nunca é a ligação de quem eu queria que fosse.
... porque não importa para quem eu ligue, não vou fazer ninguém tão alegre quanto eu ficaria se recebesse a ligação da pessoa para quem estou ligando.

Chorei porque sempre tenho a impressão de que o dia anterior foi melhor do que hoje.
... porque não importa o que eu faça, não consigo diminuir a dor de ninguém.
... porque não sei – depois de não conseguir apaixonar ninguém até hoje – se um dia vou conseguir.

Chorei porque passou o tempo em que a maior dor que tinha de suportar era um pingo de parafina derretida na unha para fazer parte do grupinho dos primos mais velhos.
... porque passou o tempo em que a minha maior ousadia era ir pro outro lado da linha do trem.
... porque passou o tempo em que os primos todos passavam férias no sertão, iam dormir com medo de assombrações, e acordavam pra tomar leite mugido empendurados na porteira do curral.
... porque eu não tenho mais medo de assombrações.

Chorei porque sou apaixonada por ele, e ele não é por mim.
... porque passei dias saboreando o beijo dele, enquanto que, pra ele, o beijo acabou na boca.
... porque não consigo querer me desapaixonar.
... porque não quero conseguir querer me desapaixonar.

Chorei porque acredito no que as músicas cantam.
... porque estou mais certa de que o que elas cantam não passa de fantasia.
Chorei porque não vivo sem música.

Chorei porque nossos sentimentos nos movem completamente, mas é incapaz de mover qualquer outra pessoa.
... porque sinto saudades de quem não sente saudades de mim.
... porque talvez nunca mais reencontre pessoas de quem tenho saudades.

Chorei porque tenho tantos planos.
... porque tenho medo de realizá-los e perceber que o tempo passou.

Chorei porque eu cresci.
... porque não queria crescer.

Chorei porque eu não conseguia dormir.
... porque acho dormir uma perda de tempo.

Chorei até que dormi.
Cristina Carneiro
Enviado por Cristina Carneiro em 01/10/2005
Código do texto: T55477
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Sobre a autora
Cristina Carneiro
Fortaleza - Ceará - Brasil, 34 anos
56 textos (2431 leituras)
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Cristina Carneiro