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Quem não tem cão caça com gato*

Minha tia Mazé, a quem eu chamo só de Mazé pela proximidade, é quase o meu avesso: não bebe, é extremamente vaidosa, e adora peças teatrais de humor. Enfermeira – logo tranqüila e calma, tem paciência até comigo, mesmo quando indignada com meu estabanamento.

De vida pacata, solteira sem filhos, Mazé costuma telefonar caçando novidades. Sem novidades da minha parte, ela conta com detalhes seus dias considerados ousados: dias em que vai comer sushi num restaurante pouco freqüentado, ou que caminha de casa até a pracinha que fica a dez quarteirões.

Sendo nossa família ralada na casaca do alho, nunca fomos de dizer aos quatro ventos o sem tamanho amor que sentimos um por todos e todos por um. Por isso, ao ouvir falar do destaque em que a coloquei na minha monografia de término de curso, Mazé caiu aos prantos de emoção.

Para constar em palavras uma gratidão que está longe de medir qualquer desmesurado afeto, escrevi uns pares de linhas de agradecimento à família. Dentre eles, uma linha à Mazé: E, em especial, à (tia) Mazé: pela disponibilidade e paciência diante da minha inquietude.

Mazé participou da minha vida acadêmica em quase nenhum momento, mas a chave de sua casa passou os quatro anos do curso, e além, na minha bolsa. Quando eu queria/quero usar o computador, assistir DVD, deitar numa rede, me isolar, tomar nescafé, comer biscoito de capuccino ou um iogurte vencido (é isso que acontece quando não se tem crianças em casa), bastava/basta subir os três vãos de escada.

Há exato um mês, mais ou menos horas, Mazé descobriu ter um câncer. No dia em que ela recebeu a notícia pelos ares do médico, fui aguardá-la da volta da notícia em sua casa. Ao abrir a porta ainda sem chorar, recebi Mazé, que entrou chorando e puxou meu choro. Desabamos; ela, por ser nela a doença; eu, pelo meu ódio à doença, pela dor da minha tia, e pelo fim de sua faceirice, que vai cair pelos cabelos.

Sem ter cabelos longos para consolá-la fazendo dos meus uns cabelos para ela, saí de lá aconselhando doses cavalares de música todos os dias. Longe de ser amante da música como eu, Mazé entendeu que aquele era o meu mais profundo desejo de que ela encontre as possíveis alegrias durante os oito meses de licença médica sem vaidade.

Sentindo-se lisonjeada desde a jamais imaginada demonstração de carinho no agradecimento da monografia, Mazé queria me prestigiar na festa de formatura, fazia questão.

Quinta-feira antes do sábado da festa, ela tomou a primeira das oito sessões de quimioterapia programadas. Mesmo sendo enfermeira que sabe da necessária convalescença de oito dias que segue cada sessão de quimioterapia, Mazé não planejou em momento algum não estar enfeitada na minha festa.

No sábado, sem ter mais como se enganar, disse-me que não mais iria, e me mostrou o vestido, o sapato alto e os novos brincos com os quais estaria na festa. Longe de ser uma apreciadora de vestidos e enfeites, entendi que aquilo era a demonstração da mais profunda vontade de me prestigiar.

Eu, que não compara vestido, nem sapato novo, e nem pensava em me aprontar, fui toda enfeitada para a festa. Em cima da hora, Mazé arranjou um salão onde me escovassem os cabelos e me fizessem as unhas. Ela queria que fosse bonita. E eu, quis escrever.

*originalmente publicada no site Crônica do Dia - www.patio.com.br/cronica
Cristina Carneiro
Enviado por Cristina Carneiro em 03/10/2005
Código do texto: T55992
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Sobre a autora
Cristina Carneiro
Fortaleza - Ceará - Brasil, 34 anos
56 textos (2431 leituras)
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Cristina Carneiro