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"EU ODEIO O GRILO FALANTE"

Essa história de orkut disseminou a tal mania do “eu odeio seja lá o que for”. Como moça de roça, pouco articulada e meio antiguinha que sou, de início sempre resisto às tais novidades. Mas agora acabo me rendendo a tal mania do “eu odeio alguma coisa”. Estou até pensando em criar uma comunidade no tal yakult (opss, isso é outra coisa), no tal orkut pra botar meus bofes, digo, meus ódios para fora. O problema é que a lista está crescendo e ainda não consegui uma frase, palavra ou expressão que sintetize o objeto do meu ódio.
Começo por dizer que eu odeio esta capacidade infeliz que eu herdei sabe Deus de qual antepassado de ler as entrelinhas em vez de enxergar só o que está escrito. O resultado, desde muito tempo tem sido sempre o mesmo: discórdia, tragédia, catástrofe nos canais de comunicação.
- Você me magoou com o que disse.
- Mas eu não disse absolutamente nada. Só olhei.
- Aha! Viu como eu tinha razão?
- Razão? Mas eu acabei de dizer que só olhei.
- Exatamente. E eu vi COMO você olhou. Seu olhar disse tudo.
Odeio esta consciência estúpida que adquiri pagando caríssimas sessões de análises, livros caríssimos e vários neurônios gastos decifrando esfinges que, de acordo comigo mesma, estão em todas as faces de todas as criaturas. O-de-i-o!! Esta meleca só me faz complicar o que seria muito simples se eu apenas fosse um pouco mais míope. Odeio isso, odeio!
Odeio esta consciência que insiste em negar que a vida pode ser cor-de-rosa e fica apontando a realidade quando tudo que eu precisava era um sonho todo pintadinho de rosa-choque. Odeio a consciência maníaca pela realidade que fica me dizendo o tempo todo que “tá, minha linda, tá gostosinho, mas...”. Odeio esta consciência dos “poréns, contudos, todavias” que me faz esta moça com mania de fodona, realista e sem devaneios. Odeio isso tudo que veio desde o primeiro espelho que olhei. Odeio esta consciência que, uma vez adquirida, não te deixa voltar atrás no tempo e ir para aquele ponto em que tudo que valia era o que você via, ouvia, e pronto. Sem interpretações, nada. Esta consciência e lucidez miseráveis que de vez em quando me fazem pedir água:
- Jesus, cadê você?
E a consciência das reminiscências de infância, das missas e padres e Credos, responde, no automático:
- Está lá, sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso.
Mas eu já estou tão p da vida, que já perdi todo o respeito religioso e devolvo em altos brados:
- Ah, é!?! Pois trate de ir descendo daí e vir dar um jeito nesta zona, que eu hoje estou com todos os demônios no corpo...
Odeio esta consciência...
- Cala a boca, Grilo Falante!!!




Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 03/10/2005
Código do texto: T56181

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154025 leituras)
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Débora Denadai